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Japão lidera o caminho: precisamos lidar com a religião de forma direta, como destaca Sam Harris



Nos últimos anos, o Japão tem enfrentado uma questão delicada, mas fundamental: como lidar com a religião no contexto da sociedade moderna, especialmente quando suas práticas se tornam problemáticas. Essa questão ganhou força após o assassinato do ex-primeiro-ministro Shinzo Abe em julho de 2022, quando ficou claro o impacto de certos grupos religiosos na política e na vida social do país.


A motivação do assassino, Tetsuya Yamagami, foi revelada como sendo ligada à sua raiva por sua mãe ter feito grandes doações à Igreja da Unificação, uma organização religiosa controversa. A morte de Abe provocou uma reflexão profunda sobre a influência de grupos religiosos no Japão, levando a uma intensificação das investigações sobre a Igreja da Unificação e outras organizações. O governo japonês agora busca entender melhor como esses grupos operam e qual seu impacto na política, sociedade e nas famílias. A parte interessante do Japão é que eles estão dispostos a achar os culpados.


Muitos países, como o Brasil, culpa tudo, menos a religião. Quando um grupo sai do controle, como o Ku Klux Klan, um grupo cristão nos Estados Unidos fortemente armado, eles dizem "eles não são cristão". Isso é falso. Eles são mais cristãos do que os Nutelas modernos. Os cristão sempre foram supremacistas brancos e violentos, a história mostra isso.


A religião tem sido historicamente uma força poderosa na sociedade, capaz de inspirar o bem, mas também de justificar o mal. Quando grupos como o Ku Klux Klan (KKK), que historicamente se identificaram como cristãos, cometem atos de ódio e violência, surge a retórica de que "eles não são cristãos". Essa dissociação pode ser reconfortante para muitos, mas ignora um fato essencial: esses grupos são produto de interpretações religiosas reais, mesmo que extremistas.


O Ku Klux Klan não é uma anomalia na história do cristianismo. Eventos como as Cruzadas, a Inquisição e a colonização de povos indígenas também mostram que a violência, muitas vezes, foi intrínseca às práticas religiosas de diferentes épocas. Esses eventos não foram desvios, mas parte da narrativa histórica da religião como ferramenta de poder e dominação.

No entanto, o cristianismo contemporâneo em muitas de suas vertentes busca se afastar desse passado violento, reinterpretando suas escrituras e adaptando-se a valores modernos de igualdade e inclusão. Isso gera um conflito: os extremistas religiosos reivindicam um cristianismo "original", enquanto os moderados rejeitam qualquer associação com eles.

Ao culpar "qualquer coisa menos a religião", perde-se a oportunidade de entender como crenças, quando usadas de forma não crítica, podem ser um catalisador para a violência e a opressão. É necessário um debate honesto, que reconheça tanto as contribuições positivas quanto os legados problemáticos da religião.


Esse tipo de reflexão nos ajuda a entender o papel que a religião ainda desempenha na sociedade atual e como podemos enfrentar suas manifestações mais perigosas sem cair em generalizações ou preconceitos.


Entre as medidas adotadas no Japão, destaca-se a distribuição de panfletos em escolas de todo o país, com o objetivo de conscientizar as crianças sobre o abuso infantil. Esses panfletos abordam práticas religiosas que podem ser vistas como coercitivas ou abusivas, como a participação forçada de crianças em atividades religiosas e o uso de ameaças relacionadas ao inferno para controlar o comportamento infantil. Embora essa abordagem tenha como foco a proteção dos direitos das crianças, ela gerou controvérsias, especialmente entre grupos religiosos conservadores, que veem nela uma ameaça à liberdade religiosa garantida pela Constituição japonesa.


É neste contexto que surge a reflexão de Sam Harris, filósofo e neurocientista, que há muito tempo vem defendendo uma abordagem direta e sem rodeios em relação à religião. Em seu trabalho, Harris argumenta que a religião não deve ser tratada como uma questão intocável ou fora de crítica. Pelo contrário, é preciso discutir suas implicações sociais, políticas e individuais de forma aberta, racional e fundamentada na ciência.


Harris, repetidamente, e abriu seu livro "A morte da Fé" com um exemplo, fala em como sempre "salvamos" a religião. Procuramos causas em tudo, mas nunca no lugar certo: a religião. Todo conflito que aparece na televisão tem alguma relação com religião, como "cristãos se ofendendo", e a solução deles é mais conflito para resolver o conflito.





Recentemente, na Síria, grupos cristãos saíram às ruas por alguém terem queimado uma árvore de Natal. Você já pensou que se o cristianismo fosse uma religião realmente madura teria ensinado seus fiéis a ignorarem? ou seja, ao reagir a provocações, os fieis respondem ao provocador, perpetuando conflitos que "se dois não quer, dois não briga". Raramente, vai ver budistas se ofendendo: a base do budismo inclui a não ofensa.


A Índia, similar a Israel, foi atacada. Eles ignoraram. Israel, judaísmo que é a base do cristianismo, já matou mais de 50.000 pessoas em Gaza em resposta ao ataque ao seu país, um número 5x maior na resposta, e não mostra planos de parar a matança.


Sam Harris, em seus escritos e palestras, argumenta amplamente sobre como as religiões — especialmente o islamismo, cristianismo e o judaísmo — podem influenciar as respostas a provocações, especialmente em contextos de violência e conflito. Harris é um crítico contundente da religião, e ele sugere que ela pode fornecer uma justificativa moral para comportamentos que, de outra forma, seriam difíceis de justificar.


No caso de Israel e Gaza, Harris apontaria que a religião, especialmente o judaísmo em Israel e o islamismo no Hamas, tem um papel central em como as ações são interpretadas e justificadas por ambos os lados. Para os israelenses, a ideia de "terra prometida" e a proteção de sua existência, em parte respaldada pela crença religiosa, pode intensificar as respostas defensivas, enquanto o islamismo, com sua ênfase em resistir à ocupação e à opressão, também pode motivar reações violentas, como no caso do Hamas.


A religião, para Harris, não apenas dá sentido a esses conflitos, mas também pode intensificar os sentimentos de vingança e a percepção de uma guerra santa ou uma luta por valores divinos. Em sua visão, muitos conflitos religiosos são alimentados por crenças de que Deus está do lado de um grupo, o que torna as ações contra o inimigo mais justificáveis, não importa quão violentas sejam. Isso cria uma situação onde a racionalidade e a negociação são muitas vezes ofuscadas por uma lógica religiosa que prega a guerra ou a violência como um meio legítimo de alcançar fins espirituais ou terrenos.


A questão da proporcionalidade, por exemplo, é difícil de discutir quando se acredita que a resposta está sendo feita em nome de uma divindade que exige vingança ou a proteção do "povo escolhido". Em termos de Gaza, Harris argumentaria que as pessoas que justificam a morte de civis com base em sua religião estão, na verdade, sendo motivadas por uma interpretação dogmática e irracional de seus textos sagrados.



Em resumo, para Harris, a religião pode moldar a forma como os indivíduos e nações reagem às provocações e como eles justificam suas respostas, muitas vezes obscurecendo o que seria uma resposta mais racional ou ética. A crença de que a violência pode ser sagrada ou divina pode ser um dos maiores obstáculos para alcançar a paz e a reconciliação em situações de conflito religioso intenso.


No Japão, essa abordagem está se tornando cada vez mais necessária. A tensão entre liberdade religiosa e proteção infantil está no centro do debate atual. A liberdade religiosa é um direito fundamental, mas, como Harris aponta, quando práticas religiosas começam a prejudicar o bem-estar das pessoas, especialmente as crianças, precisamos reconsiderar até que ponto podemos permitir que essas práticas se perpetuem.


A Igreja da Unificação e outros grupos religiosos que operam no Japão têm sido criticados por sua abordagem agressiva de recrutamento e pelas alegações de abuso psicológico e financeiro. Esses grupos não são os únicos no centro do debate, mas eles exemplificam a necessidade de uma reflexão profunda sobre os limites da liberdade religiosa, especialmente quando essa liberdade é usada de forma coercitiva.


O Japão, com sua história única e sua abordagem equilibrada entre tradição e modernidade, está, de certa forma, liderando o caminho ao tentar lidar com essa questão de forma direta. Não se trata de atacar a religião em si, mas de questionar as práticas que, em nome da religião, podem ser prejudiciais à sociedade.


O Japão não está sozinho nessa jornada. Países ao redor do mundo, incluindo o Brasil, enfrentam dilemas semelhantes. Em uma era de desinformação, onde as ideologias religiosas podem ser manipuladas para fins políticos ou sociais, é crucial que adotemos uma postura crítica e racional em relação às instituições religiosas.


A reflexão promovida pelo Japão, e a visão de pensadores como Sam Harris, nos lembram que devemos ser cautelosos com as práticas religiosas que causam dano. Precisamos encontrar um equilíbrio entre a liberdade religiosa e a proteção dos direitos individuais, especialmente dos mais vulneráveis. Só assim poderemos avançar em direção a uma sociedade mais justa e livre, onde a razão e a ciência prevalecem sobre as crenças que não têm base na realidade.


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Glossário

A Igreja da Unificação, formalmente chamada de Federação da Família para a Paz e Unificação Mundial, é um movimento religioso fundado em 1954 na Coreia do Sul por Sun Myung Moon (1920–2012). É conhecida por suas doutrinas únicas que combinam elementos do cristianismo tradicional com interpretações teológicas próprias, frequentemente relacionadas a questões familiares, sociais e políticas.

Principais características da Igreja da Unificação:

  1. Fundador e doutrinas centrais:

    • Sun Myung Moon afirmava ter recebido revelações diretamente de Jesus Cristo, que lhe deu a missão de completar a obra que, segundo Moon, Jesus não conseguiu realizar devido à crucificação.

    • Os ensinamentos centrais estão no texto chamado Princípio Divino, que interpreta a Bíblia de uma perspectiva única, incluindo conceitos sobre a restauração da humanidade e a "salvação pela família perfeita".

  2. Enfoque na família:

    • A Igreja enfatiza a importância de criar famílias "verdadeiras", com os casais sendo abençoados por Deus através de cerimônias de casamento coletivo conhecidas como Bênção Matrimonial.

  3. Cerimônias de casamento coletivo:

    • Uma marca registrada do movimento, onde milhares de casais se casam simultaneamente em cerimônias organizadas pelo grupo, frequentemente escolhidos pelo próprio Moon ou sua liderança.

  4. Ideologia política e social:

    • A Igreja promove a unificação global através de valores conservadores e frequentemente se envolve em questões políticas e sociais. O movimento defende o anticomunismo, a paz mundial e o fortalecimento dos laços familiares.

  5. Expansão global e instituições associadas:

    • A Igreja possui um vasto império de organizações relacionadas, incluindo universidades, jornais (como o The Washington Times), empresas e iniciativas inter-religiosas. Seu alcance global é significativo, especialmente em países como os Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul.

  6. Controvérsias:

    • A Igreja tem enfrentado críticas e acusações de ser uma seita por seu controle rigoroso sobre os membros, práticas financeiras e a veneração do fundador. Muitos críticos apontam para a centralização do poder e a dependência espiritual e econômica dos seguidores em relação à liderança.

Status atual:

Desde a morte de Sun Myung Moon, a Igreja passou por divisões internas, com disputas pelo controle entre membros da família Moon e líderes da organização. Apesar disso, o movimento continua ativo e influente em várias partes do mundo.


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