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Combater o conservadorismo extremista e misógino do Frei Gilson é fundamental para a segurança das mulheres | mundo ateísta news

Atualizado: 31 de mar. de 2025



Por curiosidade fui buscar mais informações sobre o frei católico que causou tanta

polêmica nos últimos dias.


Gilson da Silva Pupo Azevedo, 38 anos, ingressou na Congregação Carmelitas aos

18 anos e foi ordenado sacerdote aos 27. Tornou-se conhecido nacionalmente ao

levar mensagens de fé a um número expressivo de pessoas durante o período

pandêmico pelas redes sociais. Suas pregações cada vez mais intensas revelam seu

pensamento conservador e polêmico. Se declara um defensor do tradicionalismo

bíblico sobre questões de gênero, sexualidade, aborto e os direitos das mulheres

na sociedade. Defende o uso de armas e suas ideias se alinham ao extremismo de

direita.


Frei Gilson é um exemplo interessante e, ao mesmo tempo, assustador, de como

a tecnologia e a comunicação em massa podem ser utilizadas para disseminar

ideias que, em princípio, contradizem os valores contemporâneos da igualdade

social. Faz uso de uma linguagem e retórica própria para atrair seu público-alvo,

com apelos a um sentimentalismo característico da religião, da tradição e da

autoridade, oferecendo uma visão de mundo supostamente mais estável e segura

em um mundo em constante mudança.


Defende a ideia de que as mulheres devem se submeter aos homens e cumprir

com os papéis tradicionais de esposa e mãe. Se opõe ao feminismo e à igualdade

de direitos entre homens e mulheres.


Sua experiência e vivência enquanto homem e religioso influenciam sua visão

sobre as mulheres e suas lutas. Defende a ideia de que a opressão bíblica em

relação às mulheres é justificada e que elas devem se submeter à autoridade dos

homens.


Ao afirmar que “a mulher foi criada para ser auxiliar de Adão”, ele faz uma

interpretação pífia e insignificante para a mulher atual. Uma interpretação

machista e misógina, que objetifica a mulher em todos os aspectos e, sendo um

objeto, uma coisa, ela não pode ter quereres, ela não pode pensar, sentir, desejar.

“Essa é uma fraqueza da mulher: ela sempre quer ter mais”, “ela quer poder,

empoderamento...” ele repete várias vezes.


Claro que sim, frei Gilson, ainda não somos vistas e respeitadas enquanto seres

independentes que trabalham e sustentam outros seres sob sua tutela. Sim,

mulheres precisam trabalhar para se sustarem, mulheres precisam ser

remuneradas pelos serviços prestados, mulheres produzem e participam

diretamente para o desenvolvimento do país. Mulheres são cidadãs e

contribuintes do erário público.


Frei Gilson não percebe: há desprezo em suas palavras. Quando diz “elas querem

sempre mais” anula todas as lutas das mulheres, ao longo de décadas por direitos

que ainda são básicos. Contudo, não cabe a nós mulheres recriminá-lo por não ter

sensibilidade, mas é nosso dever alertá-lo. No entanto, é importante lembrar que

a disseminação de ideias arcaicas e obsoletas pode ter consequências danosas,

especialmente quando se trata de direitos humanos e igualdade social.


Mediante o exposto, a partir de agora, essa conversa será conduzida partindo do

pressuposto que o frei tem conhecimento de alguns fatos relacionados às lutas das

mulheres nos últimos anos. Vejamos os dados mais recentes.


1- As mulheres em nosso país ainda recebem salários inferiores aos dos homens,

mesmo sendo provedoras, responsáveis diretamente pelo sustento de 36 milhões

de famílias, um milhão a menos que os homens, segundo o IBGE (2022).

2- Outro indicador, extremamente grave, que não nos permite silenciar é a

violência sexual. Não somente as mulheres, mas crianças e até bebês não escapam

à sanha do homem violento.


3- O Ipea (2022) aponta que 30,4% dos casos de abusos sexuais são contra bebês e

meninas de 0 a 9 anos; e 49,6% são contra meninas de 10 a 14 anos.

4- Segundo o Data Folha, mais de 21 milhões de mulheres sofreram algum tipo de

violência no ano de 2023, destacando as violências física, psicológica, sexual e

assédio, como as principais.


5- Segundo a 5ª edição da Pesquisa Visível e Invisível: a vitimização das mulheres

no Brasil, uma em cada dez mulheres sofreu abuso sexual nos últimos 12 meses.

(Dados do FBSP- Fórum Brasileiro de Segurança Pública)

6- O aborto está entre as principais causas de mortalidade materna no Brasil,

segundo dados do SUS, entre 2010 e 2020.

7- Apenas em 2020 o Sistema Único de Saúde (SUS) fez 80.948 mil procedimentos

após abortos malsucedidos.


8- Em média, 5 meninas de 10 a 14 anos foram internadas por dia em 2019,

somando 150 crianças internadas por mês devido ao aborto. Isso significa que

essas crianças foram vítimas de abuso sexual. (SUS)

9- Seis em cada dez mortes por aborto malsucedido são de mulheres pretas e

pardas. Mulheres pretas e pardas têm mais que o dobro de risco de morrer que

mulheres brancas. (PNA – Pesquisa Nacional de Aborto)

10- Segundo dados da PNA de 2021, a maior ocorrência do procedimento foi entre

mulheres indígenas.

Portanto, “descriminalizar o aborto é questão de saúde pública, pela vida de

centenas de mulheres que morrem em mesas de procedimento clandestino.” Esses

dados são públicos e de livre acesso a todos.

Mesmo sendo um homem devoto e fiel aos escritos bíblicos, o frei não pode se

furtar aos inúmeros e diferentes tipos de violências que a mulher sofre por ser

mulher na sociedade brasileira. Que quaisquer palavras ditas em uma pregação

para mais de um milhão de pessoas, culpando-as, subjugando-as e objetificando-

as só contribuem para aumentar ainda mais as violências contra elas.

É importante frisar que as opiniões do frei não refletem a visão da Igreja Católica

como um todo; muitos católicos e religiosos defendem a igualdade de direitos e a

liberdade das mulheres. A própria Bíblia alerta sobre o efeito “manada” em

Romanos 12:2: “não se amoldem ao padrão deste mundo”. E o Papa Francisco

pediu: “não usem a religião para incitar ao ódio, à violência, ao extremismo e ao

fanatismo cego”.

Por isso é fundamental que existam vozes críticas e contrapontos à mensagem do

frei, defendendo os direitos das mulheres, das meninas e de bebês. Além disso, é

importante promover a educação crítica e o pensamento reflexivo, para que as

pessoas possam avaliar criticamente as informações e as ideias que são

apresentadas às massas à luz do dia e, principalmente, no silêncio das noites.


Glória Amâncio da Silva é parte integrante da Diretoria Coletiva

da Associação Ateísta do Planalto Central – APCE


Brasília, 20/03/25











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