A ideia de doenças como divinas vêm antes do cristianismo
- Jorge Guerra Pires
- 14 de dez. de 2024
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Essa citação atribuída a Hipócrates (460-377 a.C.) é emblemática ao demonstrar a transição de um pensamento mítico para um mais racional, centrado na observação da natureza e na busca de explicações científicas.
Contexto histórico
Hipócrates é considerado o "Pai da Medicina" porque foi um dos primeiros a sistematizar o conhecimento médico da época. Antes dele, as doenças eram frequentemente vistas como punições divinas ou manifestações sobrenaturais. A epilepsia, por exemplo, era chamada de doença sagrada, pois acreditava-se que aqueles que sofriam convulsões estavam possuídos por forças divinas ou demoníacas.
No entanto, Hipócrates rejeitou essa visão e propôs que todas as doenças, incluindo a epilepsia, tinham causas naturais e físicas. Ele defendia a observação clínica rigorosa e a busca de causas racionais para fenômenos que antes eram atribuídos ao sobrenatural.
Ideia central
A frase sugere que o desconhecido tende a ser considerado divino ou místico, mas que à medida que a humanidade compreende melhor os fenômenos naturais, essas interpretações religiosas ou místicas desaparecem. Isso pode ser aplicado a diversas áreas do conhecimento ao longo da história:
Relâmpagos eram considerados sinais de deuses, até serem explicados como descargas elétricas na atmosfera.
Doenças eram vistas como punições divinas, até serem estudadas pela medicina e pela biologia.
Movimentos planetários eram interpretados como guiados por deuses, até serem explicados pela gravidade.
Importância atual
Essa reflexão ainda ressoa nos dias de hoje. Muitos fenômenos que não compreendemos tendem a ser explicados com teorias místicas ou pseudocientíficas. A citação de Hipócrates, portanto, nos lembra que o avanço do conhecimento científico é fundamental para a compreensão da realidade e para o progresso humano.
A frase atribuída a Hipócrates sobre a epilepsia ser considerada divina por falta de compreensão é amplamente citada, mas a verificação direta de sua autenticidade exige uma análise cuidadosa das obras clássicas associadas a ele.
Fonte provável: "Sobre a Doença Sagrada"
A origem mais provável dessa ideia está no tratado "Sobre a Doença Sagrada" (De Morbo Sacro), uma obra geralmente atribuída a Hipócrates ou a um de seus discípulos na Escola Hipocrática. Neste texto, a epilepsia (chamada de doença sagrada) é abordada, e o autor contesta a visão de que ela tenha causas sobrenaturais ou divinas.
Trechos relevantes incluem:
"A doença chamada sagrada não é, de forma alguma, mais divina ou mais sagrada do que as outras doenças; ela tem uma causa natural, e sua origem está no cérebro."
E ainda:
"Os homens a consideram divina por ignorância e pelo espanto que sentem diante dela."
Análise da citação
Embora o conceito central esteja de fato presente nas ideias hipocráticas, a citação compartilhada na imagem parece ser parafraseada ou adaptada para uma linguagem mais moderna. É improvável que tenha sido formulada exatamente dessa maneira no texto original grego.
Conclusão
A frase na imagem reflete fielmente o pensamento hipocrático, especialmente no tratado "Sobre a Doença Sagrada".
No entanto, a citação é modernizada e não corresponde literalmente ao que foi escrito no texto original.
A ideia central é autêntica: Hipócrates rejeitava explicações sobrenaturais para doenças e defendia a busca por causas naturais e físicas.
Hipócrates viveu no período da Grécia Antiga, aproximadamente entre 460 a.C. e 377 a.C., o que significa que suas ideias surgiram séculos antes do nascimento de Cristo.
Contexto histórico
Durante o século V a.C., a Grécia Antiga florescia como um berço do pensamento racional, filosófico e científico. Esse período foi marcado pelo surgimento de figuras influentes como:
Sócrates (469-399 a.C.) – Filosofia ética e questionamento constante.
Platão (427-347 a.C.) – Idealismo e teorias sobre o mundo das ideias.
Hipócrates – Pensamento médico fundamentado na observação empírica e rejeição das explicações místicas para doenças.
Revolução no pensamento
A obra de Hipócrates foi revolucionária porque desafiou a tradição religiosa da época. Antes dele, doenças como a epilepsia eram atribuídas a punições divinas ou possessões espirituais. Hipócrates, porém, propôs uma abordagem naturalista, buscando causas no funcionamento do corpo humano.
Importância
Essa visão representa um marco no desenvolvimento da ciência, pois inaugura uma mentalidade que busca explicações racionais e empíricas, pavimentando o caminho para a medicina moderna.
Ou seja, suas ideias surgiram muito antes do cristianismo, em um período onde os fenômenos naturais ainda eram amplamente explicados através de mitos e divindades. Hipócrates foi pioneiro ao sugerir que o desconhecido poderia ser compreendido pela observação e pelo estudo da natureza.
O cristianismo, como muitas religiões, incorporou elementos e crenças de tradições anteriores, incluindo explicações primitivas para fenômenos naturais, como as doenças. A associação entre enfermidades e causas divinas ou demoníacas não é exclusiva do cristianismo e tem raízes muito mais antigas, sendo comum em diversas culturas politeístas e religiosas.
Incorporação de crenças pré-existentes
O cristianismo surgiu no contexto do judaísmo e foi influenciado por diversas tradições religiosas e culturais da época. Práticas e explicações primitivas, como:
Doenças como punição divina:
No Antigo Testamento (parte fundamental do cristianismo), doenças são frequentemente descritas como punições de Deus por pecados ou desobediência.
Exemplo: Em Levítico 26:16, Deus diz: "Trarei sobre vós terror, doenças e febres consumirão os olhos e atormentarão a alma."
Possessões demoníacas:
No Novo Testamento, há uma forte associação entre doenças (especialmente as neurológicas, como convulsões e epilepsia) e possessões demoníacas.
Exemplo: Em Mateus 17:14-18, Jesus cura um menino com convulsões ao expulsar um demônio, associando a condição à ação sobrenatural.
Herança de mitologias antigas:
A explicação religiosa para doenças já existia em culturas mais antigas, como os gregos, babilônios e egípcios. No mundo grego, a epilepsia era chamada de "doença sagrada", como mencionada por Hipócrates.
A resistência à ciência
Mesmo com o surgimento de explicações científicas, a Igreja cristã durante a Idade Média muitas vezes resistiu a essas ideias. A medicina hipocrática e o pensamento racional grego foram suprimidos por séculos em favor de interpretações religiosas:
Doenças vistas como prova de pecado ou falta de fé.
Curas milagrosas eram valorizadas mais do que tratamentos médicos baseados em observação.
Cristianismo como síntese de crenças antigas
De fato, o cristianismo não surgiu em um vácuo cultural. Ele absorveu e adaptou crenças pré-existentes, como:
A ideia de punição divina para explicar doenças e tragédias.
A presença de forças sobrenaturais, como demônios ou espíritos malignos, para justificar comportamentos inexplicáveis.
Rituais de cura semelhantes a práticas pagãs, porém recontextualizados dentro da fé cristã.
Conclusão
Sua análise faz sentido: o cristianismo, em sua formação, incorporou elementos de religiões primitivas e crenças culturais pré-existentes. A associação entre doenças e causas divinas é um exemplo claro disso. Esse fenômeno é comum em religiões, pois elas costumam se adaptar ao contexto cultural em que surgem, assimilando e reinterpretando práticas e ideias anteriores.
Esse processo reforça como o cristianismo, ao longo da história, foi moldado pela soma de crenças antigas e primitivas, ao invés de representar um rompimento com elas.


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