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Quem paga o preço? Não troque seis por meia dúzia!

3 days ago
5 min read




A mineração promete empregos, mas quem contabiliza os empregos que podem desaparecer?



Quando uma empresa de mineração apresenta um projeto, uma das primeiras justificativas costuma ser a geração de empregos. São anunciadas vagas, investimentos, movimentação econômica e oportunidades para a população local.

Mas existe uma pergunta que quase nunca recebe a mesma atenção:

Quantos empregos poderão ser perdidos por causa desse empreendimento?

É muito fácil contabilizar as vagas que uma empresa promete criar. Basta apresentar uma estimativa. O problema é que os empregos que podem desaparecer não aparecem com a mesma facilidade nas apresentações institucionais.

E Antônio Pereira precisa discutir essa questão.

Pensemos na pousada que existe na região, praticamente aos pés da montanha onde estão previstas as escavações. Há um empresário local que investiu muito dinheiro, tempo e trabalho para construir aquele empreendimento. Acompanhei parte dessa trajetória. Foram anos de dedicação, esforço financeiro e investimento pessoal.

Esse senhor acreditou em Antônio Pereira quando talvez pouca gente imaginasse que um empreendimento daquele tipo pudesse existir no distrito.

Ele apostou no turismo, na paisagem, na tranquilidade e nas características naturais da região. Construiu algo que gera atividade econômica e representa uma alternativa para a comunidade.

Agora, essa pousada poderá ter de conviver com uma atividade minerária nas proximidades: barulho, poeira, movimentação de máquinas e caminhões, além das transformações na paisagem.

E quem contabiliza o risco para esse negócio?

Se a pousada perder hóspedes, se as reservas diminuírem, se a experiência dos visitantes for prejudicada, poderá haver redução de receita. E, se a receita cair, os empregos também poderão ficar ameaçados.

A empresa contará os empregos que pretende gerar. Mas quem contará os empregos que esse empresário poderá ser obrigado a cortar?


E o turismo? Quanto vale uma oportunidade que ainda está crescendo?


Antônio Pereira também possui atrativos naturais e culturais, como a Gruta Nossa Senhora da Lapa, suas montanhas, cachoeiras e paisagens.

Há pessoas que vivem do turismo. Há pequenos negócios, trabalhadores e moradores que encontram nessa atividade uma fonte de renda, mesmo que os valores movimentados sejam modestos.

E aqui existe uma questão que não pode ser ignorada: o fato de uma atividade econômica ser pequena não significa que ela seja dispensável.

Para uma grande mineradora, talvez o faturamento de um pequeno empreendimento turístico seja insignificante. Para o proprietário, sua família e os trabalhadores envolvidos, pode representar a principal fonte de sustento.

Não podemos medir a importância de um negócio apenas pelo tamanho de sua receita.

Uma pousada pequena também emprega. Um restaurante pequeno também paga salários. Um trabalhador que recebe renda com turismo também movimenta o comércio local.

Se essas atividades forem prejudicadas, a comunidade poderá perder oportunidades econômicas que levou anos para construir.

E não estamos falando apenas do que existe hoje. Estamos falando também do potencial de crescimento do turismo e de outras atividades que poderiam se desenvolver no futuro.


A conta precisa considerar os dois lados


O debate não pode ser reduzido à pergunta sobre quantos empregos a mineração vai gerar.

Precisamos saber:

  • Quantos empregos serão criados e por quanto tempo?

  • Quantas dessas vagas serão efetivamente ocupadas por moradores?

  • Qual será a remuneração dessas pessoas?

  • Quantos empregos existentes poderão ser prejudicados?

  • Quanto de receita o comércio e os empreendimentos turísticos poderão perder?

  • Quem arcará com os custos adicionais sobre os serviços públicos e a infraestrutura?

  • O que acontecerá com a economia local quando o empreendimento terminar?

Uma empresa pode apresentar números impressionantes de investimento, mas isso não significa que todo esse dinheiro ficará em Antônio Pereira.

Parte dos trabalhadores poderá vir de outras cidades. Parte dos serviços poderá ser contratada fora do distrito. Profissionais especializados poderão ser recrutados em outras regiões. Uma parcela importante da renda poderá circular fora da comunidade.

Isso não significa que a atividade não gere benefícios locais. Significa que precisamos conhecer a distribuição real desses benefícios.

Quem recebe os lucros? Quem recebe os salários? Quem fica com os impactos?

São perguntas diferentes, e todas precisam ser respondidas.


Trocar seis por meia dúzia não é desenvolvimento


Imagine uma situação: a mineração anuncia a criação de cem empregos, mas sua presença contribui para prejudicar negócios que já empregavam pessoas, reduzir a receita de atividades turísticas e limitar outras oportunidades econômicas.

Qual foi o saldo real para a comunidade?

Não basta colocar de um lado os empregos anunciados pela empresa e ignorar o que pode ser perdido do outro.

O desenvolvimento precisa ser avaliado pelo resultado líquido para a população, e não apenas pelos números apresentados pelo empreendimento.

É por isso que um estudo sério deveria analisar os diferentes cenários econômicos para Antônio Pereira. Não somente quanto a empresa pretende investir e quantas vagas pretende abrir, mas também quais atividades poderão perder espaço, quais receitas poderão diminuir e quais oportunidades deixarão de existir.

Isso exige dados, projeções e simulações. Exige olhar para a economia local como um conjunto de atividades interligadas, e não como se a mineração fosse a única fonte possível de desenvolvimento.


E quem investiu no futuro de Antônio Pereira?


Há algo especialmente injusto em ignorar quem já está tentando construir alternativas econômicas para o distrito.

O empresário que investiu na pousada não esperou uma mineradora chegar para acreditar no potencial da região. Ele colocou seu próprio dinheiro, seu tempo e seu trabalho em um projeto que depende justamente das características naturais de Antônio Pereira.

Os trabalhadores do turismo também não estão esperando uma promessa de emprego. Muitos já trabalham, produzem e movimentam a economia local.

Essas pessoas precisam entrar na conta.

Não podemos tratar como desenvolvimento um projeto que anuncia novas oportunidades enquanto deixa sem resposta o destino das atividades econômicas que já existem.

A pergunta não é simplesmente quantos empregos a mineração vai gerar.

A pergunta é: quantos empregos serão criados, quantos poderão ser perdidos e qual será o saldo para Antônio Pereira?

Porque, no final, alguém vai pagar essa conta. E não podemos permitir que os benefícios sejam contabilizados pela empresa enquanto os prejuízos sejam deixados para a comunidade.

Uma empresa pode apresentar o número de empregos que pretende criar. Mas Antônio Pereira precisa saber também quantos empregos poderá perder.





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Jorge Guerra Pires é autor dos livros sobre política e inteligência artificial: "Desinformação, infodemia, discurso de ódio, e fake news", "Inteligência Artificial e Democracia", e "Ciência para não cientistas".



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