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A voçoroca não é apenas um buraco na montanha: quem vai pagar pela água quando a mineração mudar seu caminho?

2 days ago
6 min read






Existe uma característica da paisagem de Antônio Pereira que merece muito mais atenção do que vem recebendo nas discussões sobre o projeto da Leão de Ferro: a voçoroca.


Quando olhamos para uma voçoroca, a primeira impressão é a de um grande rasgo no terreno, uma ferida aberta na montanha. Mas essa interpretação é incompleta. Uma voçoroca não é apenas uma cavidade ou uma área de solo erodido. Ela também faz parte de uma dinâmica de escoamento da água, relacionada à topografia, à drenagem superficial e, em determinadas condições, ao fluxo subterrâneo.

Quem vive em Antônio Pereira conhece o comportamento da água durante as chuvas fortes. Sabe de onde ela desce, por onde passa e quais pontos precisam de atenção quando chove intensamente.

A água tem seus caminhos.

E esses caminhos não existem isoladamente. Eles fazem parte de uma configuração do relevo que condiciona o escoamento e se relaciona com a infraestrutura construída pela comunidade e pelo poder público.

A comunidade já precisou resolver o problema da água

Não estamos falando de uma preocupação abstrata.

Ao longo dos anos, a população já enfrentou dificuldades com o escoamento da água das chuvas. A prefeitura precisou realizar intervenções, instalar manilhas e construir estruturas para conduzir a água e evitar que ela avançasse sobre o asfalto.

Essas intervenções foram necessárias porque a água que desce da montanha precisa chegar a algum lugar. Ela não desaparece. Precisa ser conduzida por canais, tubulações e sistemas de drenagem até um destino adequado.

A infraestrutura existente foi implantada considerando uma determinada configuração do terreno e os caminhos de escoamento conhecidos.

Agora imagine que uma atividade minerária modifique significativamente essa configuração.

O que acontecerá com a água?

A mineração pode mudar a arquitetura da drenagem

A implantação de uma mina a céu aberto envolve movimentação de terra, abertura de acessos, remoção de vegetação, escavações, pilhas de estéril e alterações na topografia.

Essas intervenções podem modificar as áreas que contribuem para cada drenagem, a direção do escoamento superficial, a velocidade da água e os pontos onde ela se concentra.

Isso significa que não basta estudar a drenagem dentro da propriedade da mineradora. É necessário compreender o que acontece com a água depois que ela deixa a área do empreendimento.

Imagine um cenário hipotético: a alteração do relevo faz com que uma quantidade maior de água passe a ser direcionada para um caminho que já recebe o escoamento das encostas.

Durante uma chuva excepcional, esse volume adicional pode sobrecarregar as estruturas existentes. A água pode transbordar, alcançar o asfalto, provocar erosão, transportar sedimentos e comprometer a infraestrutura pública.

Não estou afirmando que isso necessariamente acontecerá. Mas é um risco perfeitamente pertinente, que precisa ser avaliado tecnicamente antes da implantação do empreendimento.

E não podemos esquecer que existem períodos em que a chuva é muito intensa. Quem mora na região sabe que, em determinados episódios, desce um volume expressivo de água pela montanha.

Será que as estruturas atuais suportariam uma alteração significativa nesse escoamento?

E os sumps? Para onde vai toda essa água?

O próprio estudo de drenagem do empreendimento apresenta uma questão que merece esclarecimento.

O projeto prevê sumps, estruturas destinadas à acumulação de água e retenção de sedimentos, com sistemas de bombeamento para controlar seus níveis.

O estudo considera uma precipitação de 24 horas com período de retorno de dois anos para estimar o volume de residência dos sumps. Também prevê que o esgotamento dessas estruturas ocorra em três dias, com bombeamento durante 24 horas por dia.

Mas existe um detalhe especialmente importante: o próprio documento registra que a destinação das águas bombeadas dos sumps ainda deverá ser discutida oportunamente, assim como a qualidade dessa água em relação ao destino escolhido.

Em outras palavras: o estudo descreve estruturas para acumular e bombear água, mas deixa para discussão posterior a destinação da água bombeada.

E a pergunta é inevitável: para onde vai essa água?

Será conduzida para algum curso d'água? Será lançada em uma drenagem existente? Será reaproveitada integralmente? O que acontecerá com o excedente? Qual será o efeito sobre os caminhos naturais da água e sobre as estruturas públicas existentes?

A água que sai da área da mineração não desaparece. Ela vai para algum lugar.

Precisamos saber exatamente para onde, em que volume e com quais consequências.

O problema pode acabar nas ruas de Antônio Pereira

Existe uma consequência que não pode ser ignorada.

Se a alteração do relevo modificar a dinâmica de drenagem, a água poderá chegar a pontos diferentes daqueles que recebem o escoamento atualmente. Se houver concentração de vazões em locais inadequados, poderemos enfrentar problemas de transbordamento, erosão e danos às vias públicas.

O asfalto também sofre com o escoamento descontrolado. A água pode comprometer pavimentos, danificar estruturas de drenagem e exigir intervenções frequentes.

E há estabelecimentos e imóveis próximos às áreas de escoamento, incluindo pousadas situadas em cotas mais baixas, cuja exposição a eventuais alagamentos precisa ser avaliada.

Não podemos afirmar antecipadamente que esses estabelecimentos serão alagados. Mas também não podemos ignorar essa possibilidade sem estudos que demonstrem que o risco foi adequadamente considerado.

A pergunta é: quem pagará se as estruturas existentes deixarem de ser suficientes?

O lucro fica com alguns. A conta pode chegar à prefeitura.

Aqui chegamos a uma questão econômica e social.

A atividade minerária gera benefícios econômicos para a empresa, seus proprietários, fornecedores e trabalhadores. O EIA estima 35 postos de trabalho para o empreendimento.

Mas, se a alteração do relevo exigir novos sistemas de drenagem, ampliação de manilhas, recuperação de ruas ou intervenções para resolver problemas de escoamento, quem financiará essas obras?

A empresa tem obrigações legais de prevenir, mitigar e reparar os impactos que causar. Isso precisa estar previsto, demonstrado e garantido.

Entretanto, existe o risco de que problemas não adequadamente previstos ou controlados acabem exigindo intervenções do poder público.

E conhecemos as dificuldades da administração municipal. Obras públicas não acontecem instantaneamente. Entre identificar um problema, elaborar um projeto, conseguir recursos, contratar serviços e executar uma intervenção, pode passar muito tempo.

Nesse intervalo, quem conviverá com os transtornos será a população.

A comunidade não pode depender da velocidade de resposta da prefeitura para corrigir problemas que poderiam ter sido prevenidos antes da implantação da mina.

O que precisa ser demonstrado antes da mineração?

Não basta apresentar um projeto de drenagem limitado à área operacional da empresa.

É necessário demonstrar, por meio de estudos hidrológicos e hidráulicos, como será o comportamento da água antes e depois da alteração do relevo.

Precisamos saber:

  • Como serão modificados os caminhos naturais de escoamento?

  • Quais áreas passarão a contribuir para cada canal de drenagem?

  • Qual será a vazão de pico durante chuvas intensas?

  • Para onde será conduzida a água bombeada dos sumps?

  • Qual será o destino do excedente que não puder ser reaproveitado?

  • As manilhas e estruturas públicas existentes suportarão as novas vazões?

  • Foram avaliados os riscos de transbordamento, erosão e alagamento nas áreas mais baixas?

  • Quem financiará eventuais ampliações e reparos na infraestrutura pública?

  • Existe um plano de contingência para chuvas extremas e falhas no bombeamento?

Essas perguntas não são exagero. São requisitos básicos de uma discussão responsável sobre uma intervenção que pode alterar a dinâmica hídrica de uma área próxima à comunidade.

A montanha pode mudar. A população continuará aqui.

O empreendimento tem uma vida útil estimada de 8,5 anos. A comunidade continuará existindo depois disso.

A mineração pode modificar o relevo em poucos anos, mas os efeitos de uma drenagem mal planejada podem permanecer por muito mais tempo.

A voçoroca não é apenas um buraco na montanha. Ela faz parte de uma paisagem que possui uma dinâmica própria de escoamento. A infraestrutura de Antônio Pereira foi sendo construída em resposta a essa realidade.

Modificar o terreno sem compreender as consequências para todo o sistema de drenagem significa assumir um risco que pode ultrapassar os limites da propriedade da mineradora.

E não podemos aceitar que, depois da mineração, a população tenha de conviver com ruas danificadas, água avançando sobre o asfalto, estabelecimentos ameaçados por alagamentos e uma prefeitura obrigada a correr atrás de soluções.

A empresa pode alterar a montanha. Mas não pode transferir para a população a responsabilidade de resolver as consequências dessa alteração.

A água sempre encontrará um caminho.

A pergunta é: quem terá de pagar quando esse caminho mudar?







Leia agora o projeto deles




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Jorge Guerra Pires é autor dos livros sobre política e inteligência artificial: "Desinformação, infodemia, discurso de ódio, e fake news", "Inteligência Artificial e Democracia", e "Ciência para não cientistas".



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