top of page

A matemática de açougueiro da Leão de Ferro: quando a mineradora acredita que ninguém vai ler o relatório

3 days ago
5 min read







Existe algo particularmente preocupante na maneira como a Leão de Ferro apresenta seu empreendimento à população de Antônio Pereira. Não estamos falando apenas dos impactos ambientais de uma mineração a céu aberto instalada praticamente no meio de uma comunidade. Estamos falando também da qualidade dos estudos que deveriam demonstrar que esses impactos foram identificados, dimensionados e avaliados com o devido rigor.

A pergunta que começa a surgir é inevitável: podemos confiar em uma empresa que parece tratar com tanta simplicidade questões ambientais, sociais e até mesmo operações matemáticas elementares?

Recentemente, encontrei uma inconsistência no Estudo de Impacto Ambiental (EIA) que merece atenção.

Na página 409, a empresa apresenta sua estimativa de circulação de caminhões. Segundo o documento, seriam 11 viagens diárias para transportar o minério. Entretanto, quando detalha os destinos, informa que 9 viagens seguiriam em direção a Barão de Cocais e outras 3 em direção a Mariana.

Nove mais três são doze.

Não onze.

Parece uma brincadeira, mas está escrito em um documento técnico apresentado no processo de licenciamento ambiental.

E não termina aí. O mesmo relatório apresenta uma operação de dez horas diárias, das 7h às 17h, e informa taxas de aproximadamente 1 viagem por hora para Barão de Cocais e 0,3 para Mariana. Somadas, são 1,3 viagem por hora. Entretanto, o total de 11 viagens corresponde a 1,1 viagem por hora. Se considerarmos as 12 viagens discriminadas nos destinos, temos 1,2 viagem por hora.

Aparentemente, nem mesmo a descrição do fluxo de caminhões consegue permanecer coerente dentro de uma única página.

Mas por que isso importa?

Porque esses números não estão ali por acaso. Eles são utilizados para sustentar uma conclusão conveniente: a de que o empreendimento acrescentaria apenas 0,37% ao tráfego existente na MG-129 e, portanto, não provocaria impacto significativo no trânsito local.

O raciocínio é simples: apresenta-se um número pequeno, compara-se esse número com a média diária de tráfego da rodovia e conclui-se que o impacto será praticamente imperceptível.

Só que existe um problema anterior à conclusão: os próprios números utilizados nessa avaliação não fecham.

E há outro problema metodológico. Uma média diária não descreve necessariamente a distribuição dos caminhões ao longo do dia. Não informa se haverá concentração de veículos em determinados horários, conflitos nos acessos, circulação de caminhões vazios no retorno ou riscos adicionais para quem utiliza a rodovia e as vias de acesso ao distrito.

Uma média pode ser matematicamente correta e, ainda assim, ser insuficiente para descrever uma realidade.

Mas parece que, nesse estudo, nem mesmo a média consegue escapar das inconsistências.

A mesma lógica aparece na avaliação ambiental

O problema não se restringe ao trânsito.

Quando examinamos o inventário florestal, encontramos outra questão que merece ser discutida.

O EIA descreve um censo dos indivíduos arbóreos com DAP superior a 5 centímetros, utilizando a medição do diâmetro à altura do peito, aproximadamente 1,30 metro acima do solo. O levantamento foi realizado por uma equipe composta por dois ajudantes e um identificador, engenheiro florestal.

Isso pode caracterizar os indivíduos arbóreos dentro dos critérios adotados, mas não equivale a um inventário completo de toda a diversidade vegetal existente na área.

E as plantas que não se enquadram nessa categoria? As herbáceas, os pequenos arbustos, as espécies de menor porte, as plantas sazonais e aquelas cuja identificação exige outros procedimentos?

Uma floresta não é composta apenas pelas árvores que conseguimos medir com uma fita métrica a 1,30 metro do chão.

É justamente por isso que precisamos questionar a abrangência do levantamento e a segurança das conclusões sobre a biodiversidade que será perdida.

O estudo precisa demonstrar o que efetivamente procurou, o que conseguiu identificar e quais limitações permanecem. Não basta transformar um levantamento de indivíduos arbóreos em uma descrição aparentemente abrangente da vegetação.

E essa não é uma discussão meramente acadêmica. Estamos falando de um território que será transformado permanentemente por uma atividade minerária.

A comunidade não é obrigada a aceitar números como verdades absolutas

Existe uma característica recorrente nesses estudos: os impactos são descritos, classificados, transformados em tabelas e acompanhados de medidas mitigadoras.

A poeira será monitorada. O ruído será monitorado. Os acessos receberão placas. As vias serão umidificadas. A vegetação será objeto de programas de recuperação.

No papel, tudo parece administrável.

Mas a realidade de Antônio Pereira não cabe integralmente nas tabelas de uma consultoria ambiental.

A população já conhece problemas de abastecimento de água, poeira, circulação de veículos pesados e os efeitos acumulados da mineração na região. Não estamos falando de um território vazio, disponível para receber mais uma atividade industrial como se nada existisse antes da chegada da empresa.

Estamos falando de pessoas que moram ali.

E é justamente essa realidade que deveria exigir o máximo rigor de quem pretende instalar uma mineradora nas proximidades de suas casas.

Não o mínimo.

O problema é a confiança

Uma empresa que pretende modificar profundamente o território de uma comunidade precisa apresentar estudos que suportem o escrutínio público.

Não pode esperar que os moradores simplesmente aceitem gráficos, percentuais e conclusões porque estão impressos em um documento de centenas de páginas.

A comunidade tem o direito de perguntar. Tem o direito de conferir. Tem o direito de identificar contradições e exigir explicações.

E quando encontramos 9 viagens para um destino, 3 para outro e um total declarado de 11, não estamos diante de uma discussão filosófica sobre desenvolvimento sustentável.

Estamos diante de uma conta que qualquer pessoa consegue conferir.

O mais preocupante não é o erro isolado de adição. É o que ele representa dentro de um documento que pretende transmitir segurança técnica sobre os impactos de um empreendimento.

Quantas outras inconsistências permanecem escondidas em centenas de páginas? Quantas conclusões dependem de estimativas simplificadas? Quantas vezes a complexidade do território foi reduzida a uma tabela conveniente?

Essas perguntas não são ataques à mineração. São perguntas legítimas sobre a qualidade de um estudo ambiental que pretende justificar uma transformação profunda na vida de milhares de pessoas.

E não podemos esquecer: o ônus de demonstrar a viabilidade ambiental do empreendimento não é da comunidade. É de quem pretende realizá-lo.

Antônio Pereira não precisa de uma mineradora que apresente números para impressionar. Precisa de estudos que resistam à conferência de qualquer morador.

Porque, se a empresa não consegue manter a coerência de uma soma na avaliação do tráfego, por que deveríamos aceitar sem questionamento suas conclusões sobre os impactos ambientais?

A Leão de Ferro quer explorar o território. A comunidade, no mínimo, tem o direito de examinar a qualidade do trabalho de quem pretende fazê-lo.

Não somos obrigados a confiar. E definitivamente não somos obrigados a deixar de fazer as contas.








Leia agora o projeto deles




Gostou da postagem? Mostre seu suporte comprando com cafezinho para min!






Outra forma de mostrar suporte, usando PayPal.








Importante. Este site não faz pesquisas eleitorais. Todas as pesquisas mostrada são enquetes, somente para efeito de informação e pesquisa. Não tome decisões usando essas enquetes. Contrate uma empresa que faz pesquisas eleitorais usando as regras do TSE.





Jorge Guerra Pires é autor dos livros sobre política e inteligência artificial: "Desinformação, infodemia, discurso de ódio, e fake news", "Inteligência Artificial e Democracia", e "Ciência para não cientistas".



Comments


Esse banner foi visto 1136 vezes. No total, foi visto 87 segundos,
1 minutos. Pessoas gastam em média 0 segundos olhando para o banner.
Esse seria o tempo que seu anúncio será visto em média por seu público-alvo. Você teria gasto 11.36 reais nesse anúncio.

Precisa de ajuda em estatística?
E análise de dados?
Agende um horário comigo!

Mostre seu suporte

Fique por dentro

bottom of page