As montanhas também protegem os nossos ventos: o que acontece quando destruímos o relevo de uma comunidade?

Quando olhamos para as montanhas que cercam Antônio Pereira, enxergamos paisagens, vegetação, cachoeiras e uma beleza natural que faz parte da identidade do nosso distrito. Mas existe algo que quase nunca lembramos: as montanhas também desempenham funções ambientais que vão muito além daquilo que nossos olhos conseguem perceber.
Uma dessas funções está relacionada aos ventos.
As montanhas interferem diretamente na circulação do ar. Elas funcionam como barreiras naturais, desviando correntes de vento, modificando sua velocidade e criando áreas relativamente protegidas. Os vales, por sua vez, podem funcionar como corredores naturais, direcionando e canalizando os ventos.
É um sistema natural que funciona continuamente, mesmo quando não percebemos.
Agora imagine o que acontece quando uma montanha é profundamente modificada ou simplesmente desaparece para dar lugar a uma gigantesca escavação minerária.
Não estamos apenas retirando minério do solo. Estamos modificando a geografia do território, alterando as condições naturais que influenciam a circulação do ar.
E isso importa muito mais do que parece.
E a poeira, para onde vai?
Uma das grandes preocupações de quem vive próximo a atividades minerárias é a poeira. Escavações, movimentação de rochas, transporte de minério e circulação de caminhões produzem material particulado que pode ser transportado pelo vento.
Agora pense na relação entre essas duas coisas: de um lado, uma atividade que produz poeira; de outro, uma transformação profunda do relevo que interfere na circulação atmosférica.
As montanhas e a vegetação fazem parte da configuração ambiental que determina como o ar circula pelo território. Quando modificamos essa configuração, também precisamos pensar nas consequências para a dispersão de partículas.
Não é uma questão abstrata. É uma questão relacionada à qualidade do ar que respiramos.
Imagine famílias vivendo próximas a uma atividade industrial de grande porte, enquanto o relevo natural que caracteriza a região é transformado por escavações.
É esse tipo de consequência que precisa fazer parte da discussão sobre o futuro de Antônio Pereira.
Uma montanha não é apenas minério esperando para ser retirado
Existe uma maneira muito limitada de enxergar a natureza: olhar para uma montanha e perguntar quanto minério podemos retirar dela.
Mas uma montanha oferece muito mais do que aquilo que pode ser comercializado.
Ela participa da dinâmica dos ventos, influencia o escoamento da água, abriga vegetação, sustenta ecossistemas e compõe a paisagem de uma comunidade.
Também possui valor turístico, científico, cultural e ambiental.
Antônio Pereira tem cachoeiras, a Gruta Nossa Senhora da Lapa, paisagens naturais e possibilidades de desenvolver atividades de ecoturismo. Temos uma região que pode atrair visitantes, pesquisadores e pessoas interessadas em conhecer nossas riquezas naturais.
Por que enxergamos tão facilmente o valor econômico do minério, mas temos tanta dificuldade em reconhecer o valor econômico e ambiental de uma montanha preservada?
Por que uma escavação é apresentada como desenvolvimento, enquanto a preservação de uma paisagem natural é tratada como se não produzisse riqueza alguma?
O que estamos deixando para as próximas gerações?
A questão não é simplesmente o que uma empresa pretende retirar de uma montanha. É também aquilo que a comunidade poderá perder quando essa montanha deixar de existir.
Estamos falando da paisagem, da dinâmica ambiental, da qualidade de vida e das possibilidades econômicas que dependem da preservação do território.
Uma montanha preservada pode continuar fazendo parte da vida de uma comunidade por gerações. Pode sustentar atividades turísticas, pesquisas científicas, educação ambiental e outras oportunidades econômicas.
Uma área profundamente transformada pela mineração terá outro destino.
Por isso, antes de aceitar que uma montanha seja transformada em uma gigantesca escavação, precisamos fazer uma pergunta muito simples:
Será que estamos considerando tudo aquilo que essa montanha representa para Antônio Pereira, ou estamos olhando apenas para o minério que existe dentro dela?
A natureza não é um estoque de matérias-primas à espera de exploração. Ela é um sistema do qual fazemos parte.
E talvez seja hora de perceber que, quando destruímos uma montanha, podemos estar perdendo muito mais do que uma paisagem bonita.
Podemos estar alterando o próprio ambiente que sustenta a vida da nossa comunidade.
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Jorge Guerra Pires é autor dos livros sobre política e inteligência artificial: "Desinformação, infodemia, discurso de ódio, e fake news", "Inteligência Artificial e Democracia", e "Ciência para não cientistas".
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