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Nem mesmo os ateus são imunes à irracionalidade: os casos do budismo e satanismo




Os ateus frequentemente se apresentam como defensores da razão, argumentando que suas posições são fundamentadas na lógica e na evidência. No entanto, mesmo os ateus não estão imunes à irracionalidade e às influências culturais que moldam suas crenças e aversões: isso pode levar a posicionamentos totalmente irracionais. Albert Einstein rejeitou o que ele chamou de "ateísmo dogmático", segundo Einstein, o ateísmo pode cair na mesma armadilha da religião e virar dogmático, virando aquilo que tenta combater.


Dois casos curiosos destacam essa contradição: o tratamento do satanismo como "aliado" e a rejeição ao budismo como uma forma de religiosidade "aceitável". Estou usando as redes sociais, Facebook tanto em grupos em inglês quando português. Quando posto sobre budismo, geralmente, ocorre uma reação rápida negando que seja ateísta e dizendo que é religião. Isso não considera as nuanças do budismo. De outro lado, também ignorando nuanças, o satanismo costume ser defendido, apesar de que não é uma regra geral. Contudo, isso nos leva a pensar porque desse comportamento.






O satanismo: inimigo do meu inimigo é meu amigo?

Em muitas discussões, especialmente no Ocidente, o satanismo é frequentemente visto como um aliado pelos ateus. Essa associação se dá porque o satanismo moderno, como o fundado por Anton LaVey na década de 1960, é essencialmente ateísta. Ele rejeita a existência literal de Satanás e usa a figura como um símbolo de rebeldia contra a moralidade cristã tradicional. Para muitos ateus, essa postura é atraente porque compartilha a oposição à hegemonia cristã.

No entanto, essa afinidade nem sempre é completamente racional. Por que o satanismo — que ainda usa rituais, teatralidade e simbolismos — é tratado como uma forma legítima de expressão cultural, enquanto outras práticas espirituais ou religiosas são rejeitadas? A resposta pode estar em uma herança histórica: a figura de Satanás foi ressignificada no Ocidente como o antídoto cultural ao cristianismo dominante, criando um elo emocional que vai além da razão.


O budismo: espiritualidade ou religiosidade?





O budismo, por outro lado, não recebe o mesmo tratamento. Embora muitas escolas budistas não exijam a crença em um deus criador, ele ainda é amplamente rejeitado por ateus como "religioso" devido a elementos como carma, renascimento e práticas ritualísticas. Curiosamente, essa rejeição pode ser menos sobre os aspectos sobrenaturais do budismo e mais sobre sua incapacidade de se alinhar à narrativa anti-religiosa predominante no Ocidente.

Aqui, a irracionalidade dos ateus se manifesta em sua aversão quase automática a qualquer sistema que envolva práticas espirituais. Isso revela um condicionamento cultural: em uma sociedade moldada pela oposição ao cristianismo, qualquer coisa que não desafie diretamente esse legado pode ser vista com desconfiança.



A racionalização das aversões


O que esses dois casos têm em comum é o fenômeno da racionalização. Muitas vezes, ateus criam justificativas aparentemente lógicas para suas posições, sem perceber que essas posições são profundamente influenciadas por emoções, histórias pessoais e contextos culturais. A rejeição ao budismo pode ser mascarada como um apego à razão, mas frequentemente tem mais a ver com heranças culturais e condicionamentos ocidentais do que com análises objetivas. Isso é quando o gato teve um dono que maltratou ele, e passar a odiar todos os humanos. O conceito de ateísmo como o ateus negam vem de religiões judaicas, esse ateísmo como oposição a religião.


Um gato maltratado que passa a odiar todos os humanos e a forma como o ateísmo pode ser entendido como uma reação específica às religiões de tradição judaico-cristã. Esse conceito de ateísmo, muitas vezes, é uma negação não apenas da crença em Deus, mas também das estruturas culturais, morais e sociais associadas a essas religiões.


Isso reflete um comportamento humano comum: quando alguém é marcado negativamente por uma experiência específica (como um animal que sofreu abuso), tende a projetar essa aversão em tudo que se assemelha ao que causou o trauma. No caso do ateísmo como oposição, especialmente no Ocidente, essa postura muitas vezes é direcionada às religiões predominantes, como o cristianismo, enquanto outras tradições religiosas ou espirituais, como o budismo, acabam sendo menos contestadas ou até ignoradas, pois não carregam o mesmo peso histórico ou emocional.


Esse fenômeno destaca um ponto central sobre as motivações humanas, mesmo entre aqueles que se dizem guiados pela razão: nossa bagagem cultural e emocional molda nossas crenças e ações, e frequentemente justificamos essas influências com racionalizações posteriores.


Por outro lado, a aceitação do satanismo como um aliado também é irracional, pois muitas de suas práticas e símbolos não são mais "racionais" do que aqueles das religiões que os ateus rejeitam.


Reflexão final: somos todos humanos


O ponto central aqui é que nem mesmo os ateus, com todo seu compromisso declarado com a razão, estão imunes aos vieses e irracionalidades. Assim como qualquer outro grupo, eles são produtos de seu tempo, cultura e história. Reconhecer isso não diminui a validade do pensamento crítico, mas sim enriquece o diálogo ao lembrar que a racionalidade é uma meta, não um ponto de partida.


Madalyn O'Hair, uma ateísta americana muito importante, disse uma vez "uma fruta nunca cai muito longe da árvore", sobre seu ateísmo.

Reconhecer isso é muito importante para a causa ateísta. Somente quando sabemos nossas falhas e acertos, podemos melhorar.


Afinal, a verdadeira racionalidade é alcançada não apenas ao questionar as crenças dos outros, mas também ao investigar profundamente as motivações e pressupostos que orientam as nossas próprias.



Exemplo: ateus também usam a falácia da ignorância


Estava falando com um ativista ateu, com certa influência. Durante toda a conversa, ele tentava rejeitar a ideia de que budismo não é religião, e que eles podem ser considerados ateus. O que chama atenção foi o uso da falácia da ignorância, muito comum quando falo com religiosos. Isso ocorre quando a pessoa testa seus limites de conhecimento para dizer "aha, você não sabe isso". Isso tira o foco da discussão e coloca nos limites do conhecimento da cada pessoa. Toda pessoa tem limites de conhecimento. Esse truque garante que a pessoa vai ganhar. Isso seria uma argumentação reversa: tudo gira em torno de refutar a tese do oponente, sem apresentar nada novo. Como exemplo, ele disse: Buda tinha seguidores. Sim, ter seguidores era bem comum nos tempos da Grécia Antiga também. O nascimetno de Buda é místico, também foi o de Platão.


Esse é um comportamento comum em debates polêmicos: desviar o foco para os limites do conhecimento do interlocutor, utilizando a falácia da ignorância. Essa tática não busca esclarecer a questão, mas desacreditar o oponente, criando uma falsa sensação de vitória argumentativa.


No caso da discussão sobre o budismo e o ateísmo, argumentos como "Buda tinha seguidores" ou "o nascimento de Buda é místico" servem mais para minar a posição do outro do que para explorar a questão central. Essa estratégia, que chamei de "argumentação reversa", frequentemente revela uma postura defensiva, na qual a pessoa não está aberta ao diálogo, mas focada em refutar o oponente a qualquer custo.


A comparação com Platão é interessante porque mostra que muitos elementos associados ao budismo — seguidores, ensinamentos ou narrativas místicas — não são exclusivos dele. São, na verdade, características comuns a vários sistemas de pensamento e figuras históricas, sem que isso os torne necessariamente religiosos no sentido teísta rejeitado por muitos ateus.


Essa situação ressalta a importância de estabelecer definições claras no início de um debate. Por exemplo, o que exatamente é considerado "religião"? O budismo, como sistema de práticas e filosofia, nem sempre envolve a crença em divindades, o que pode justificar o argumento de que é ateu em alguns contextos.


Para evitar a armadilha da falácia da ignorância, uma abordagem produtiva seria questionar diretamente a relevância desses desvios e retornar ao foco central do debate. Afinal, discussões genuínas não deveriam ser sobre vencer, mas sobre alcançar um entendimento mais profundo ou, no mínimo, reconhecer as diferenças de perspectiva.


Teria o budismo causado danos ao ateístas?


Quando teve de fugir dos Estados Unidos devido às perseguições cristãos, a ateísta Madalyn O'Hair fugiu para um pais budista.



Embora o budismo seja amplamente percebido como uma religião pacífica devido aos seus ensinamentos de não-violência e compaixão, a história real do budismo é mais complexa. Existem momentos e contextos históricos em que grupos budistas ou seguidores da religião estiveram envolvidos em conflitos ou discriminação. Quanto à perseguição de ateus, a situação varia dependendo do contexto cultural e histórico.


Sobre a ideia de pacifismo no budismo:

  1. Ensinamentos centrais: O budismo promove a compaixão e a não-violência, com conceitos como a ahimsa (não causar mal a outros seres). Esses princípios geralmente têm levado os budistas a evitarem conflitos violentos.

  2. História de conflitos: Em algumas épocas e regiões, comunidades budistas estiveram envolvidas em conflitos armados ou na justificação de violência. Por exemplo:Japão feudal: Mosteiros budistas no Japão medieval, como os de monges guerreiros (sōhei), participaram de batalhas por poder político e econômico.


    Myanmar e Sri Lanka: Em tempos modernos, monges budistas foram associados a movimentos nacionalistas que, em alguns casos, incitaram violência contra minorias, como muçulmanos Rohingya em Myanmar.


Relação com ateus:

O budismo, em sua essência, não possui dogmas obrigatórios sobre a crença em divindades. Ele é, em muitos aspectos, compatível com o ateísmo, pois não exige a crença em um Deus criador. Isso faz com que ateus e budistas frequentemente coexistam sem problemas.

No entanto, em sociedades budistas majoritárias, podem ocorrer tensões sociais ou culturais entre diferentes grupos. Por exemplo:

  • Contexto cultural: Em algumas culturas profundamente influenciadas pelo budismo, pessoas que não seguem práticas religiosas podem ser marginalizadas por questões sociais, mas isso não é exclusivamente dirigido a ateus.

  • Casos de pressão social: Essas situações geralmente não se configuram como perseguição sistemática, mas sim como imposições culturais ou de costumes.

Conclusão:

Embora o budismo tenha uma reputação de pacifismo e tolerância, ele não está imune às complexidades históricas e culturais que podem levar à violência ou exclusão. No entanto, a perseguição direta a ateus não é um tema marcante ou recorrente na história budista.

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