Deus Acima de Todos no Brasil, Inclusive, da Mulher
- Jorge Guerra Pires
- 2 de jan. de 2025
- 4 min de leitura

Nos últimos anos, vimos um aumento nas campanhas políticas em que a religiosidade se torna uma característica central dos candidatos. Figuras públicas que se alinham com valores conservadores e religiosos conquistam uma base significativa de apoio, mas frequentemente essas campanhas priorizam temas como a segurança, economia e moralidade cristã, enquanto questões de igualdade de gênero e direitos das mulheres ficam em segundo plano. Isso nos leva a refletir: até que ponto Deus e a moral religiosa são colocados acima da defesa dos direitos fundamentais das mulheres?
A Religião Como Pilar Moral e Político
A religião no Brasil não é apenas uma esfera privada, mas uma força influente na política. Candidatos frequentemente reforçam sua ligação com Deus como uma forma de fortalecer sua imagem pública e conquistar apoio, criando uma identidade que mistura política e fé. Nesse contexto, políticas públicas que garantem direitos das mulheres podem ser vistas como secundárias quando confrontadas com valores religiosos conservadores.
Porém, essa fusão entre política e religião pode resultar em uma visão distorcida sobre questões de gênero. A luta das mulheres contra a violência doméstica, o assédio e a desigualdade de direitos muitas vezes é minimizada, ou até ignorada, em favor de uma narrativa que coloca Deus e a moral cristã acima de qualquer outra questão. A situação de mulheres que vivem sob o risco de violência ou discriminação, por exemplo, não é tratada com a urgência necessária quando comparada à defesa de uma moral religiosa rígida.
A Violência Contra a Mulher: Uma Trágica Consequência
O Brasil é um dos países com os maiores índices de violência contra as mulheres no mundo, mas em vez de tratar esse problema com seriedade, vemos frequentemente candidatos religiosos priorizando a imagem de "homem de fé" acima da proteção às vítimas de violência. É alarmante perceber que a própria defesa de uma moral religiosa parece, em alguns casos, se sobrepor à necessidade de garantir os direitos das mulheres e combatê-las.
Um exemplo disso é o fato de que, durante as campanhas de 2018, os ataques de Bolsonaro a mulheres, suas declarações misóginas e até mesmo o desrespeito a temas como a violência doméstica não tiveram impacto significativo na sua base eleitoral. O eleitorado, em grande parte, ignorou essas agressões verbais, colocando em primeiro plano temas como segurança, economia e, claro, religião. Esse fenômeno reflete uma dinâmica onde as questões de gênero e os direitos das mulheres são vistas como secundárias em relação à fé e à moral religiosa.
Esse cenário se repete quando falamos sobre o documentário que tentou desconstruir a figura de Maria da Penha, uma das mulheres mais emblemáticas no Brasil no combate à violência doméstica. A tentativa de questionar a veracidade das alegações de abuso contra ela é um exemplo claro de como, muitas vezes, as agressões contra mulheres são minimizadas em nome de uma agenda política e religiosa.
Deus Acima de Todos?
A frase "Deus acima de todos" tem sido usada como um símbolo de união e força, mas será que ela também pode ser interpretada como uma forma de subordinação? Em um país com altos índices de violência contra a mulher, onde a luta pela igualdade de gênero deveria ser uma prioridade, vemos a religião, muitas vezes, sendo usada como uma desculpa para colocar valores morais acima da proteção e dos direitos das mulheres.
É claro que a fé é um direito de cada indivíduo, mas, no Brasil, essa fé tem sido usada como uma ferramenta política para garantir apoio a figuras públicas que muitas vezes expressam comportamentos e visões desrespeitosas em relação às mulheres. A frase "Deus acima de todos", que exalta a moral religiosa, acaba refletindo uma situação onde a mulher é colocada em segundo plano, quando, na verdade, deveria ser a prioridade em qualquer sociedade que se diz justa e igualitária.
Conclusão: O Brasil Que Põe Deus Acima de Todos
O que fica claro é que, no Brasil, a fé religiosa continua sendo um poder enorme nas escolhas políticas e sociais. Porém, quando essa fé se torna um pretexto para justificar atitudes misóginas ou desconsiderar a luta pelos direitos das mulheres, surge uma contradição: um país que prega a moral cristã, mas que permite a perpetuação da violência contra a mulher e da desigualdade de gênero.
No fim das contas, o que parece prevalecer é que, para muitos brasileiros, Deus está acima de tudo — inclusive da mulher. A escolha de apoiar candidatos que, apesar de demonstrar visões misóginas, representam uma imagem de "homens de Deus", leva a uma reflexão profunda sobre as prioridades de uma parcela significativa da população. Para esses eleitores, a fé e a moral religiosa, associadas ao cristianismo, se sobrepõem aos direitos humanos e à luta por uma sociedade mais justa e igualitária.
Se a sociedade brasileira realmente deseja avançar em termos de igualdade de gênero, é fundamental que essa relação entre fé e política seja repensada. O Brasil precisa encontrar um equilíbrio onde a proteção dos direitos humanos, especialmente das mulheres, não seja ofuscada por uma narrativa que coloca a religião acima da dignidade e da igualdade. Só assim poderemos alcançar um futuro onde Deus não esteja acima de tudo, mas, sim, onde a verdadeira moralidade se reflete no respeito e na garantia dos direitos de todas as pessoas.
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