O caso da Rússia: teria o ateísmo fracassado?
- Jorge Guerra Pires
- 30 de jan. de 2025
- 3 min de leitura

"Não há dúvida de que, de fato, Stalin era ateu. Ele recebeu sua educação em um seminário ortodoxo, e sua mãe nunca perdeu a decepção por ele não ter entrado para o sacerdócio, como ela pretendia — um fato que, segundo Alan Bullock, causava muita diversão a Stalin. Talvez por causa de seu treinamento para o sacerdócio, o Stalin maduro era mordaz sobre a Igreja Ortodoxa Russa, sobre o cristianismo e a religião em geral. Mas não há evidências de que seu ateísmo tenha motivado sua brutalidade. Seu treinamento religioso anterior provavelmente também não teve esse efeito, a não ser que tenha sido ao ensiná-lo a reverenciar a fé absolutista, a autoridade forte e a crença de que os fins justificam os meios." — Richard Dawkins
"Não deixem os pais darem aos seus filhos uma educação religiosa! Essa política foi tentada, em grande escala, na antiga União Soviética, com consequências desastrosas. O ressurgimento da religião na Rússia pós-soviética sugere que a religião tem papéis a desempenhar e recursos inimagináveis por essa visão simplista." — Daniel Dennett
A União Soviética é frequentemente citada como um "exemplo do fracasso do ateísmo". Críticos afirmam que a Rússia era um estado ateu e que, após a queda do comunismo, a religião ressurgiu com força, provando que o ateísmo não consegue sustentar uma sociedade. Mas essa narrativa é falha e distorce tanto a história soviética quanto a própria ideia de ateísmo.
O Ateísmo da URSS: uma imposição estatal
A União Soviética de Stalin não foi um exemplo de uma sociedade racionalista e cética que abandonou a religião por meio do pensamento crítico. O que ocorreu foi a substituição de uma estrutura religiosa por uma estrutura ideológica dogmática. O marxismo-leninismo, sob Stalin, funcionava como uma religião de Estado: havia doutrinas inquestionáveis, "santos" como Lenin, textos sagrados como "O Capital" e "O Manifesto Comunista", e uma perseguição brutal contra aqueles que divergiam da ortodoxia ideológica.
Ou seja, a URSS não aboliu a religião no sentido filosófico, apenas a substituiu por um novo dogma. O problema nunca foi o ateísmo, mas sim o autoritarismo. O mesmo fenômeno pode ser visto em regimes teocráticos, como o Irã dos aiatolás ou a Europa medieval, onde uma visão de mundo era imposta de forma violenta.
Por que a religião voltou na Rússia?
Com o colapso da União Soviética, o vácuo ideológico foi preenchido pela religião, que voltou com força — mas isso não significa que o ateísmo "falhou". O que aconteceu foi um movimento histórico previsível: quando uma doutrina autoritária cai, a população busca segurança em sistemas conhecidos. Como o ateísmo soviético nunca foi um movimento natural da sociedade, mas sim um projeto imposto, ele não tinha uma base filosófica sólida entre a população. Sem educação cética e secularismo de verdade, o retorno da religião era inevitável.
O Ateísmo Funciona? Olhe Para a Europa
Se quisermos avaliar o "sucesso" do ateísmo, não faz sentido olhar para um regime totalitário como a URSS. O melhor exemplo está nos países democráticos de maioria secular, como Suécia, Dinamarca, Noruega e Japão. Nesses países, o ateísmo e o secularismo cresceram organicamente, acompanhados de educação de qualidade e liberdade de pensamento. O resultado? Sociedades estáveis, pacíficas e com altos índices de desenvolvimento humano.
Conclusão: A Rússia não reflete o ateísmo, mas o totalitarismo
O caso soviético não é um argumento contra o ateísmo, mas sim contra regimes autoritários que impõem uma visão de mundo de forma coercitiva. O verdadeiro ateísmo não precisa de imposição, nem de substituir religiões por dogmas ideológicos. Ele prospera em ambientes onde o pensamento crítico é incentivado e onde as pessoas têm liberdade para chegar às suas próprias conclusões.
Portanto, da próxima vez que alguém disser que "o ateísmo fracassou na Rússia", lembre-se: o que fracassou foi a imposição de uma ideologia autoritária. O ateísmo não precisa de coerção — ele sobrevive e floresce onde há liberdade.
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