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A Máscara do Sagrado: O Tradition Washing como Estratégia de Poder


O greenwashing revelou a capacidade das instituições de corporificar valores éticos apenas para fins performáticos, criando uma fachada de sustentabilidade para encobrir práticas predatórias. No campo da gestão pública e das relações institucionais, observa-se o surgimento de uma face ainda mais insidiosa dessa prática: o tradition washing. Diferente do apelo ecológico, que frequentemente se sustenta em critérios técnicos verificáveis, o tradition washing utiliza o valor cultural e religioso como um "escudo moral" para imunizar instituições contra a fiscalização, o questionamento técnico e a demanda por transparência.


A Anatomia da Blindagem


O tradition washing não deve ser confundido com o exercício legítimo da fé ou a valorização da identidade cultural. Trata-se, em essência, de uma tecnologia de controle do espaço público. Quando instituições responsáveis por representar comunidades em processos de reparação ou mitigação de riscos — como no caso de assessorias técnicas vinculadas a desastres ambientais — impõem ritos religiosos em espaços burocráticos e oficiais, elas realizam uma manobra de exclusão simbólica.

Ao institucionalizar uma tradição específica como a "tradição do povo", cria-se automaticamente um fora: o cidadão dissidente, o laico, ou o adepto de crenças minoritárias. A eficácia dessa tática reside na sua capacidade de silenciamento: qualquer demanda por laicidade ou neutralidade técnica é rapidamente convertida pelo discurso do poder em uma agressão à "fé das pessoas simples" ou aos "costumes locais". O tradition washing transforma, assim, a arena democrática — que deveria ser um exercício de razão pública — em um teatro de devoção que protege a gestão de escrutínios necessários.


Incompetência e o "Passaporte de Universalidade"


Há uma correlação estreita entre a fragilidade técnica e a intensidade do apelo à tradição. Onde os dados falham e a gestão é ineficiente, a performance religiosa preenche o vazio. A tradição torna-se o último refúgio da incompetência: um recurso retórico que permite aos agentes contornar perguntas difíceis, refugiando-se em um falso misticismo.

Isso é possível devido ao que pode ser denominado como "passaporte de universalidade". Símbolos cristãos frequentemente recebem, no imaginário estatal brasileiro, uma autorização tácita para ocuparem todos os espaços, sendo tratados como a cultura comum de todos. Ao colar esse selo de "universalidade" em uma fé específica, a instituição deslegitima qualquer forma de pluralidade. Isso resulta na aniquilação simbólica daqueles que não se curvam ao rito imposto. A cordialidade, nesta dinâmica, deixa de ser uma virtude social e assume o papel de uma arma de exclusão, forçando o silêncio através do constrangimento moral.


A Laicidade sob Cerco


A laicidade, princípio fundamental da democracia, não é uma medida contra a religião, mas uma garantia de igualdade. O espaço público exige um chão nivelado, onde nenhum cidadão, independentemente de sua fé, seja tolhido ou coagulado. Quando o tradition washing penetra esse chão, ele altera a inclinação da superfície institucional, fazendo com que todo o peso do poder favoreça quem detém a hegemonia religiosa.

Para o fortalecimento da democracia, é imperativo desmascarar essa tática. A gestão pública deve ser regida pela transparência e pela neutralidade, não pela instrumentalização do sagrado. A proteção de direitos civis, a segurança técnica de comunidades e o debate sobre o uso de recursos públicos não podem ser reféns de rituais de fé. A única tradição compatível com a gestão do bem comum é a tradição da prestação de contas, da impessoalidade e do respeito absoluto à liberdade de consciência de cada indivíduo. Qualquer tentativa de confundir a burocracia com a devoção deve ser lida, sem hesitação, como um gesto deliberado de opacidade e controle.






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Jorge Guerra Pires é autor dos livros sobre política e inteligência artificial: "Desinformação, infodemia, discurso de ódio, e fake news", "Inteligência Artificial e Democracia", e "Ciência para não cientistas".



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