top of page

Quanto custa o passado? E quem está pagando essa conta?

Updated: 4 days ago






Até o momento, a Assessoria Técnica Independente (ATI) de Antônio Pereira, Instituto Guaicuy, recebeu aproximadamente R$ 14,4 milhões em recursos destinados ao funcionamento de sua estrutura. Esse dinheiro não corresponde às indenizações pagas às famílias atingidas. Trata-se do orçamento utilizado para manter a própria assessoria: contratação de equipes multidisciplinares, advogados, psicólogos, assistentes sociais, comunicadores, produção de materiais, realização de reuniões, logística, despesas administrativas e demais atividades relacionadas ao processo de reparação.

Se dividirmos esse valor pelos cerca de cinco mil moradores de Antônio Pereira — apenas como um exercício de ordem de grandeza, e não porque todos sejam atendidos pela ATI — chegamos a aproximadamente R$ 2.880 por habitante. É um investimento significativo para uma comunidade desse porte.


Naturalmente, a pergunta não é se esse dinheiro deveria existir. A existência de uma Assessoria Técnica Independente é um direito importante das pessoas atingidas. A verdadeira questão é outra.


Como esses recursos estão sendo utilizados?


Os relatórios financeiros publicados pela ATI apresentam despesas por categorias, como pessoal, comunicação, fornecedores e administração. Entretanto, não permitem responder uma pergunta essencial:


Quanto dos recursos foi efetivamente destinado a cada grupo de pessoas atingidas ou a cada linha de atuação?

Quanto foi investido em ações voltadas aos garimpeiros?


Quanto foi destinado às pessoas removidas de suas casas?


Quanto foi direcionado aos comerciantes?


Quanto foi empregado em projetos voltados aos jovens?


Quanto foi utilizado para pensar a diversificação econômica de Antônio Pereira?


Sem esse nível de transparência, torna-se difícil avaliar se as prioridades adotadas refletem as necessidades da comunidade como um todo ou se determinados grupos e determinadas agendas receberam atenção desproporcional.

Este ensaio não pretende questionar o direito de ninguém à reparação. Tampouco pretende negar a importância histórica do garimpo ou das tradições culturais de Antônio Pereira.

A reflexão proposta é outra.

Quando os recursos são limitados e o tempo da reparação também é limitado, quais escolhas produzirão o maior benefício para as próximas gerações?


Porque toda decisão tem um custo.

E, muitas vezes, o maior custo não é aquilo que escolhemos financiar.

É justamente aquilo que deixamos de construir.

Os recursos destinados à reparação de Antônio Pereira são finitos.

A Assessoria Técnica Independente (ATI) já recebeu milhões de reais para desenvolver seu trabalho. Esse dinheiro não é destinado às indenizações das famílias, mas ao funcionamento da própria estrutura da assessoria: equipe técnica, comunicação, mobilização social, materiais, eventos e demais atividades.

A pergunta que me inquieta não é simplesmente quanto foi gasto.



A pergunta é: com quais prioridades esse dinheiro está sendo sendo gasto?


Os relatórios financeiros divulgados pela ATI informam categorias gerais de despesas. Entretanto, não encontrei uma discriminação que permita responder perguntas como:

  • Quanto foi destinado às ações voltadas aos garimpeiros?

  • Quanto foi destinado às pessoas removidas?

  • Quanto foi destinado aos comerciantes?

  • Quanto foi destinado aos jovens?

  • Quanto foi destinado à diversificação econômica?

  • Quanto foi destinado às diferentes iniciativas culturais?


Sem esse detalhamento, torna-se difícil avaliar se a distribuição dos esforços está proporcional às necessidades do conjunto das pessoas atingidas.

Ao acompanhar reuniões, materiais publicados e vídeos institucionais, tenho a impressão de que determinados temas recebem enorme destaque.

Vejo uma produção frequente relacionada ao garimpo tradicional.

Vejo também diversos conteúdos relacionados ao patrimônio religioso e cultural da comunidade.

Essas iniciativas podem ter justificativas dentro da ideia de "reparação integral". Mas isso não elimina uma pergunta fundamental:


Qual é o custo de oportunidade dessas escolhas?


Em economia existe um conceito simples.


Todo recurso empregado em uma direção deixa de estar disponível para outra.

Cada profissional dedicado a um projeto deixa de atuar em outro.

Cada reunião possui um custo.

Cada documentário possui um custo.

Cada cartilha possui um custo.

Cada campanha possui um custo.


Quando os recursos são limitados, toda prioridade significa abrir mão de outra.

É justamente por isso que acredito que Antônio Pereira deveria discutir não apenas quanto dinheiro recebeu, mas principalmente qual futuro deseja construir.


Queremos utilizar esses recursos para fortalecer atividades tradicionais?

Ou queremos aproveitar uma oportunidade histórica para transformar a economia local?


Muito antes do desastre, Antônio Pereira já enfrentava um problema estrutural: a dependência econômica de poucas atividades.


A reparação poderia ser utilizada para ampliar essa dependência.

Ou poderia servir para reduzi-la.

Poderíamos investir mais em educação.

Mais em qualificação profissional.

Mais em empreendedorismo.

Mais em inovação.

Mais em tecnologia.

Mais em inteligência artificial.

Mais em incubadoras de empresas.

Mais em oportunidades para que os jovens construam seu futuro sem depender exclusivamente da mineração.

Não proponho apagar a história.

A história deve ser preservada.

O garimpo faz parte da identidade de muitas famílias.

As tradições religiosas também fazem parte da história de Antônio Pereira.

Tudo isso merece registro, memória e respeito.

Mas preservar uma tradição é diferente de transformá-la na principal aposta para o futuro.


Da mesma forma, valorizar o patrimônio religioso é diferente de dar a impressão de que a reparação está reforçando uma identidade religiosa específica. Em uma comunidade plural, é legítimo perguntar se a comunicação institucional representa de forma equilibrada toda a diversidade dos atingidos.


Talvez a maior pergunta da reparação não seja quanto dinheiro foi gasto.

Talvez seja outra.


Quando todo esse dinheiro terminar, o que permanecerá em Antônio Pereira?


Teremos jovens mais preparados?

Teremos uma economia mais diversificada?

Teremos novas empresas?

Teremos mais oportunidades?

Ou apenas teremos preservado imagens do passado?

Reparar não significa apenas olhar para trás.

Reparar também significa decidir que futuro queremos construir.

E toda escolha tem um preço.

O maior deles, muitas vezes, é justamente aquilo que deixamos de construir.



Gostou da postagem? Mostre seu suporte comprando com cafezinho para min!




Outra forma de mostrar suporte, usando PayPal.








Importante. Este site não faz pesquisas eleitorais. Todas as pesquisas mostrada são enquetes, somente para efeito de informação e pesquisa. Não tome decisões usando essas enquetes. Contrate uma empresa que faz pesquisas eleitorais usando as regras do TSE.





Jorge Guerra Pires é autor dos livros sobre política e inteligência artificial: "Desinformação, infodemia, discurso de ódio, e fake news", "Inteligência Artificial e Democracia", e "Ciência para não cientistas".



Comments


Esse banner foi visto 1028 vezes. No total, foi visto 648 segundos,
10 minutos. Pessoas gastam em média 0 segundos olhando para o banner.
Esse seria o tempo que seu anúncio será visto em média por seu público-alvo. Você teria gasto 10.28 reais nesse anúncio.

Precisa de ajuda em estatística?
E análise de dados?
Agende um horário comigo!

Mostre seu suporte

Fique por dentro

bottom of page