Por que Deus escolheu a oferta de Abel e rejeitou a de Caim? Segundo Saramago
- Jorge Guerra Pires
- 28 de dez. de 2024
- 3 min de leitura

A história de Caim e Abel, presente no livro do Gênesis, é uma das narrativas mais intrigantes da Bíblia. Ela apresenta Caim, um agricultor, oferecendo os frutos da terra a Deus, enquanto seu irmão Abel, um pastor, oferece as primícias de seu rebanho. Deus aceita a oferta de Abel e rejeita a de Caim, o que leva este último a assassinar seu irmão em um ato de inveja e revolta. Mas por que Deus rejeitou a oferta de Caim? Essa pergunta ecoa há séculos e foi explorada por muitos pensadores, incluindo o escritor português José Saramago, em sua obra Caim.
A arbitrariedade divina segundo Saramago
Para Saramago, o ponto central dessa narrativa não é apenas o crime de Caim, mas a aparente arbitrariedade de Deus. Em Caim, o autor questiona por que um Deus onisciente e justo escolheria uma oferta em detrimento da outra sem uma justificativa clara. Saramago sugere que a rejeição de Caim foi um ato de favoritismo divino, sem qualquer razão moral ou ética aparente, refletindo a natureza caprichosa de Deus conforme descrito no texto bíblico.
A narrativa, segundo Saramago, não explica se havia algo intrinsecamente errado com a oferta de Caim. Ela apenas afirma que Deus "não se agradou". Isso, para o autor, simboliza a injustiça que permeia as ações divinas ao longo do Antigo Testamento, onde a punição, muitas vezes, parece desproporcional ou até mesmo arbitrária.
O paralelo com Sodoma e Gomorra
A crítica de Saramago à arbitrariedade divina também se aplica à narrativa da destruição de Sodoma e Gomorra. Em Caim, o autor aborda o episódio em que Deus destrói as cidades por causa de sua "grande maldade". Segundo Saramago, a história expõe a brutalidade divina, já que todos os habitantes, incluindo crianças e inocentes, são mortos sem distinção.
O que a Bíblia realmente diz sobre Sodoma?

A passagem de Gênesis 18-19 é muitas vezes associada à ideia de que Deus destruiu Sodoma por causa da homossexualidade de seus habitantes. No entanto, uma análise mais cuidadosa revela que os pecados de Sodoma eram mais amplos. Em Ezequiel 16:49-50, por exemplo, o profeta afirma que Sodoma foi condenada por causa do orgulho, da negligência aos pobres e de práticas abomináveis, incluindo a falta de hospitalidade. O livro de Judas 1:7 menciona "imoralidade sexual e ir após carne estranha", o que pode se referir à tentativa de violentar os anjos enviados a Ló.
Essa interpretação vai além da ideia de orientação sexual, focando em questões como violência, desrespeito e injustiça social. A tentativa de abuso sexual coletivo em Sodoma reflete poder e dominação, não uma relação consensual ou amorosa.
A crítica de Saramago
Saramago questiona por que Deus, que poupou Caim mesmo após este cometer assassinato, optou por uma punição tão severa e indiscriminada em Sodoma. Para ele, isso evidencia um padrão de comportamento divino que parece mais interessado em punir do que em redimir. Essa crítica não apenas desafia a moralidade divina, mas também levanta questões sobre como os textos sagrados moldam nossas concepções de justiça e ética.
Reflexões finais
Tanto na história de Caim e Abel quanto na destruição de Sodoma e Gomorra, Saramago encontra exemplos de uma divindade cujas ações parecem desafiar os conceitos humanos de justiça e lógica. Em Caim, ele usa essas narrativas para provocar uma reflexão crítica sobre a fé, a moralidade e o papel da religião em nossas vidas. Ao nos depararmos com essas histórias, somos convidados a questionar não apenas os textos, mas também as interpretações e os significados que atribuímos a eles.
Para se torna membro, faça o login. Pode usar redes sociais como Gmail e Facebook.



Comentários