A Trajetória do Ateísmo no Brasil: Da Marginalidade ao Direito à Identidade
- Jorge Guerra Pires
- 15 de abr.
- 3 min de leitura

Você já parou para pensar como a descrença em divindades se organizou historicamente em um país tão profundamente religioso como o Brasil? Recentemente, o Prof. Dr. Ricardo Cortez Lopes apresentou uma análise fascinante sobre a Genealogia da trajetória do ateísmo no Brasil, utilizando uma lente científica inovadora: a represontologia.
O que é Represontologia?
Antes de mergulharmos na história, precisamos entender a ferramenta. A represontologia é uma ciência recente que estuda a Representação em si — sua composição e comportamento — independentemente do seu conteúdo.
Diferente da sociologia ou da psicologia, que usam a representação como uma ferramenta para entender grupos ou indivíduos, a represontologia a transforma em seu objeto central de estudo. O ateísmo, nesse contexto, é um material riquíssimo, pois oferece diversas "representações" que servem de modelo para entender como as representações se sustentam e se transformam.
As Três Eras do Ateísmo Brasileiro
De acordo com as pesquisas do Dr. Ricardo, a trajetória do ateísmo no Brasil pode ser dividida em três etapas principais:
Etapa Incipiente (1497 – 1844): Durante o período colonial e o início do Império, o ateísmo era uma manifestação esparsa e individual. Não havia um movimento coletivo ou um fim social definido; eram iniciativas isoladas que se desenvolviam à margem da sociedade oficial.
Etapa Revolucionária (1844 – 1930): Aqui, o cenário muda com a chegada de filosofias como o positivismo. Os positivistas propunham substituir a religião católica por uma "Religião da Humanidade", focada no homem e no progresso concreto, em vez de uma entidade abstrata. É o que se chama de introdução do Humanismo Exclusivo no Brasil.
Etapa Reivindicatória (1930 – Dias Atuais): Com a modernização das elites e a consolidação (ainda que questionada) do Estado Laico, o ateísmo passou a ser visto como uma variedade cultural que merece respeito dentro do estado de direito. O foco mudou para o legalismo e o ativismo, com o surgimento de associações como a ATEA (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos).
O "Sagrado" no Ateísmo e na Cultura
Um ponto instigante da pesquisa é que, na sociologia da moral, tanto religiões quanto o ateísmo possuem elementos considerados sagrados. No caso do ateísmo laico, o "sagrado" refere-se a valores inegociáveis que não dependem da conveniência humana.
Além disso, a representação do ateu evoluiu em diversas mídias:
Literatura e Teatro: Análises de obras como "O Semeador", de Avelino Fóscolo, e "O Berço do Herói", de Dias Gomes, revelam como o argumento ateu foi construído ficcionalmente ao longo do tempo.
Cultura Pop: Até em animes como Saint Seiya (Os Cavaleiros do Zodíaco), personagens como Ikki de Fênix ressignificam a descrença, negando não a existência de divindades presentes, mas a sua "exceção" ou superioridade absoluta sobre a energia vital (Cosmo).
Por que isso importa?
Estudar a genealogia do ateísmo não é apenas sobre "crer ou não crer". É entender como os padrões de julgamento coletivo — a moral — se transformam historicamente no Brasil. Atualmente, o ateísmo busca seu espaço não como uma revolução radical, mas como um exercício de direito e cidadania em uma sociedade plural.
Para quem deseja se aprofundar, a Revista Colirium é o principal espaço de discussão para estudos represontológicos e representacionais no Brasil.


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