E se aplicássemos à Leão de Ferro o método de avaliação de uma pesquisadora da UFOP?
Um exercício que nos leva a uma nota de 5 em 10


Imagine que você precisasse dar uma nota, de zero a dez, ao estudo ambiental de um empreendimento minerário. Você saberia avaliar se ele foi bem-feito? Talvez pensasse que é necessário ser cientista para responder. Afinal, estamos falando de plantas, biodiversidade, levantamentos de campo e relatórios técnicos. Mas existe uma maneira interessante de começar essa discussão: compreender um estudo científico, extrair os critérios utilizados pelos pesquisadores e fazer um exercício de avaliação de outro empreendimento. Foi justamente isso que fizemos com o EIA da Leão de Ferro, em Antônio Pereira, distrito de Ouro Preto.
Nosso ponto de partida foi um artigo científico publicado em 2026 por Lívia Echternacht e seus colaboradores, pesquisadores ligados à Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). O trabalho, intitulado Technical quality of flora baseline surveys in environmental impact assessment: a counterproof study of a mining project in Minas Gerais, Brazil, investiga uma questão fundamental: será que os estudos de flora apresentados nos processos de licenciamento ambiental conseguem registrar adequadamente as plantas existentes nas áreas que poderão ser afetadas pela mineração?
Para responder a essa pergunta, os pesquisadores não se limitaram a ler um relatório. Eles realizaram uma espécie de contraprova: fizeram observações de campo, registraram plantas, consultaram coleções botânicas e compararam seus resultados com os apresentados no estudo ambiental de outro empreendimento minerário na região de Ouro Preto.
Os resultados chamaram a atenção. Durante o trabalho de campo, a equipe registrou 79 espécies de plantas vasculares. Dessas, 56 não apareciam no relatório ambiental analisado. Entre as espécies ausentes havia quatro classificadas como ameaçadas de extinção e uma espécie microendêmica, conforme descrito no artigo. A pesquisa também identificou limitações nos métodos empregados, destacando a importância de avaliar se o esforço de campo foi suficiente, se diferentes grupos de plantas foram contemplados e se as identificações botânicas podem ser verificadas por outros pesquisadores.
Mas existe um detalhe que torna nossa investigação especialmente interessante. A professora Lívia participou da reunião pública em que a proposta relacionada à Leão de Ferro foi derrotada por oito votos a zero. Durante essa reunião, ela chamou a atenção para duas espécies diferentes de plantas que, segundo sua manifestação, haviam sido completamente ignoradas pela Leão de Ferro. A ata dessa reunião, disponibilizada publicamente pela Prefeitura de Ouro Preto, registra o contexto da discussão, mas não identifica nominalmente as duas espécies.
Por isso, depois da reunião, entrei em contato com a professora pelo WhatsApp. Foi nessa conversa que ela me informou quais eram as duas espécies. Posteriormente, também me enviou o artigo científico que serve de base para este ensaio. Essa sequência é importante: primeiro houve a manifestação da pesquisadora na reunião pública; depois, o contato direto permitiu conhecer os nomes das plantas mencionadas; por fim, o artigo ofereceu uma referência metodológica para refletir sobre a qualidade dos estudos de flora apresentados no licenciamento ambiental.
E há uma curiosidade que merece ser contada. Segundo as informações que recebi, uma das espécies possui registro no iNaturalist, uma plataforma internacional na qual pessoas do mundo inteiro compartilham observações de organismos vivos. A outra não apresenta observações nessa plataforma. Isso não significa, por si só, que uma espécie seja rara ou que sua ausência no iNaturalist prove que ela foi ignorada pelo EIA. A plataforma depende de observações realizadas e cadastradas por seus usuários, e a ausência de registros não equivale à ausência da espécie na natureza. Ainda assim, esse detalhe ajuda a ilustrar a dificuldade de documentar certas plantas, especialmente quando sua distribuição é restrita ou sua identificação exige conhecimentos especializados.
Conforme a explicação que recebi da professora pelo WhatsApp, a identificação dessas espécies pode ser difícil e exigir especialistas, inclusive com o uso de microscópio para examinar características que não são facilmente percebidas a olho nu. Isso nos leva a uma questão importante: se determinadas plantas são difíceis de reconhecer, o levantamento ambiental precisa contar com métodos e conhecimentos capazes de detectá-las. Não basta percorrer uma área e presumir que todas as espécies relevantes serão encontradas.
É importante, entretanto, compreender o que essa informação demonstra — e o que ela ainda não demonstra. O artigo de Lívia Echternacht não foi escrito sobre a Leão de Ferro. O empreendimento investigado pelos pesquisadores era outro. Portanto, seria incorreto afirmar que as 56 espécies ausentes naquele relatório também estão ausentes do EIA da Leão de Ferro, ou concluir que os dois estudos apresentam necessariamente as mesmas falhas.
O que temos são duas informações relacionadas, mas distintas. De um lado, um artigo científico que mostra como uma contraprova independente pode encontrar espécies não registradas em um estudo ambiental. De outro, a manifestação da professora Lívia em uma reunião pública, na qual ela chamou a atenção para duas espécies que, segundo ela, foram ignoradas pela Leão de Ferro. A partir dessas informações, é razoável perguntar se os critérios metodológicos discutidos no artigo podem ajudar a avaliar o EIA desse empreendimento.
Não estamos, portanto, pegando um artigo sem relação alguma com o assunto e fazendo uma comparação aleatória. Estamos utilizando um trabalho científico que discute problemas gerais de levantamento florístico e aplicando sua lógica como referência para investigar um caso concreto. A própria pesquisadora compartilhou o artigo depois de nossa conversa sobre as espécies, o que torna essa referência pertinente à discussão. Isso não significa que ela tenha atribuído uma nota ao EIA ou validado todas as conclusões deste ensaio. A avaliação que apresentamos é nossa, e deve ser entendida como um exercício preliminar.
Foi esse o procedimento que adotamos. Extraímos a essência do trabalho de Lívia Echternacht — a importância de um levantamento de flora abrangente, a necessidade de avaliar a suficiência das observações de campo, a atenção aos diferentes grupos de plantas e a possibilidade de conferir as identificações botânicas — e utilizamos esses critérios para examinar o relatório da Leão de Ferro, elaborado pela Adianter.
O EIA informa que os trabalhos de campo relacionados à vegetação da área diretamente afetada ocorreram em outubro de 2020. O relatório também descreve um censo florestal de 100% das árvores com diâmetro à altura do peito superior a cinco centímetros. Esse é um procedimento relevante para o levantamento das árvores abrangidas pelo método. Mas existe uma pergunta que não podemos ignorar: um levantamento de árvores é suficiente, por si só, para demonstrar que toda a flora relevante foi adequadamente estudada?
Não necessariamente. Uma área pode ter poucas árvores e, ainda assim, abrigar plantas herbáceas, arbustos pequenos ou espécies raras que mereçam atenção. O próprio relatório descreve a presença de vegetação herbácea e arbustiva na área. Por isso, precisamos saber como esses grupos foram estudados, quais procedimentos foram empregados e se o relatório demonstra que o esforço de levantamento foi suficiente.
Isso não significa que essas plantas tenham sido ignoradas pelo EIA. Significa que precisamos verificar se foram estudadas de maneira adequada e se o relatório apresenta evidências suficientes para sustentar suas conclusões. As duas espécies mencionadas pela professora tornam essa verificação ainda mais relevante, porque levantam uma pergunta concreta: elas foram procuradas, identificadas e consideradas no diagnóstico ambiental? Essa pergunta precisa ser respondida mediante a conferência dos nomes científicos e das informações contidas no próprio EIA, e não apenas com base na ausência de registros em uma plataforma de observação.
Outro ponto merece atenção. Ao avaliar a perda de diversidade da flora, o EIA reconhece que a implantação do empreendimento exigirá a remoção da vegetação, mas atribui menor importância a esse impacto porque a área já estaria bastante alterada pela ação humana. É verdade que a região sofreu perturbações. Entretanto, uma área alterada não é necessariamente uma área sem valor para a conservação. Para avaliar a importância da perda, precisamos conhecer adequadamente aquilo que ainda existe ali. É justamente por isso que a qualidade do diagnóstico da flora importa tanto.
E foi assim que chegamos à nossa nota preliminar: cinco em dez.
Mas por que cinco? Por que não dois? Por que não três ou quatro? E, no sentido oposto, por que não sete, oito, nove ou dez? Essas perguntas fazem parte do exercício. Elas nos obrigam a explicar os critérios, em vez de simplesmente escolher um número que pareça convincente.
Não demos uma nota muito baixa porque o EIA apresenta procedimentos técnicos reais. Há descrição de trabalho de campo, identificação botânica, consulta a referências e um inventário sistemático das árvores abrangidas pelo censo. Seria injusto ignorar esses elementos e tratar o relatório como se não houvesse metodologia alguma.
Por outro lado, também não demos uma nota alta porque, nos trechos examinados, ainda não conseguimos confirmar todos os elementos necessários para concluir que o diagnóstico da flora é suficientemente abrangente. Precisamos verificar melhor como foram estudadas as plantas que não entram no censo arbóreo, como se avaliou a suficiência do levantamento, se existem registros botânicos que permitam conferir as identificações e se as conclusões sobre os impactos estão bem sustentadas pelos dados coletados.
Uma nota sete indicaria que temos boas razões para considerar o diagnóstico globalmente satisfatório, apesar de algumas limitações. Uma nota oito exigiria evidências mais consistentes de que os métodos e o esforço amostral foram adequados. Uma nota nove indicaria um trabalho muito robusto, com alta representatividade e conclusões bem fundamentadas. Já uma nota dez exigiria um nível excepcional de rigor, transparência e coerência entre os dados e as conclusões.
Até agora, não encontramos evidências suficientes para justificar essas notas mais altas. Isso não prova que o EIA seja ruim em todos os aspectos. Significa que ainda não demonstramos que ele merece ser considerado bom, muito bom ou excelente quanto ao diagnóstico da flora.
A nota cinco, portanto, não deve ser entendida como uma sentença definitiva sobre o trabalho da Adianter. É uma avaliação preliminar, baseada nos trechos analisados e nos critérios que extraímos do artigo científico. Uma análise documental mais completa poderá elevar ou reduzir essa nota. Se encontrarmos evidências de métodos mais abrangentes do que aqueles que conseguimos confirmar, a avaliação deverá melhorar. Se identificarmos lacunas concretas e importantes, a nota poderá cair.
Essa é justamente a utilidade do exercício. Em vez de simplesmente acusar uma empresa de fazer um estudo ruim, procuramos estabelecer perguntas que possam ser respondidas com base no próprio relatório. Em vez de tratar uma pesquisadora como se tivesse estudado um empreendimento que não estudou, aproveitamos sua contribuição científica de maneira responsável: como referência metodológica para examinar outro caso. E, em vez de transformar a nota cinco em uma conclusão definitiva, usamos esse número como ponto de partida para explicar o que já conseguimos observar e o que ainda precisamos verificar.
No fundo, a questão é simples. Quando um empreendimento pretende transformar uma área por meio da mineração, a sociedade precisa saber o que existe naquele território antes que a transformação aconteça. Não basta saber quantas árvores serão retiradas. É necessário compreender a biodiversidade que poderá ser afetada e avaliar se o estudo ambiental oferece informações suficientes para prever os impactos.
O artigo de Lívia Echternacht nos lembra que essa verificação não deve se limitar à leitura das conclusões de um relatório: é importante perguntar como os dados foram obtidos e se eles representam adequadamente a realidade. A manifestação da professora sobre as duas espécies acrescenta uma questão concreta à discussão e justifica que examinemos com atenção se elas aparecem no diagnóstico da Leão de Ferro. Aplicar essa lógica ao empreendimento é um exercício de análise, não uma prova antecipada de falhas.
E a nossa nota de cinco em dez é, acima de tudo, um convite para continuar investigando. Não é o fim da discussão, mas o começo de uma pergunta que merece resposta: o diagnóstico da flora apresentado no EIA da Leão de Ferro é realmente suficiente para sustentar as conclusões sobre os impactos da mineração?
É essa pergunta — e não o número isolado — que importa.
Projetos da Leão de Ferro
Leia agora o artigo
Gostou da postagem? Mostre seu suporte comprando com cafezinho para min!
Outra forma de mostrar suporte, usando PayPal.

Importante. Este site não faz pesquisas eleitorais. Todas as pesquisas mostrada são enquetes, somente para efeito de informação e pesquisa. Não tome decisões usando essas enquetes. Contrate uma empresa que faz pesquisas eleitorais usando as regras do TSE.

Jorge Guerra Pires é autor dos livros sobre política e inteligência artificial: "Desinformação, infodemia, discurso de ódio, e fake news", "Inteligência Artificial e Democracia", e "Ciência para não cientistas".
Coleção completa no Google Books: https://play.google.com/store/books/series?id=rqM0HAAAABCbvM
E na Amazon: https://www.amazon.com/dp/B0CW17VCQL?binding=kindle_edition&ref=dbs_m_mng_rwt_sft_tkin_tpbk




Comments